Gira Hub: Dos bastidores do Rock in Rio a uma das assessorias de comunicação mais bem posicionadas do Brasil
Ágata Cunha e Michelle Andrade construíram trajetórias distintas que se encontraram onde o show business e a cultura se cruzam. O resultado é uma das assessorias mais posicionadas do mercado brasileiro
Elas se conheceram no Rock in Rio 2013. Michelle Andrade estava do lado da comunicação de grandes marcas — Ambev, Heineken, Nike, Adidas, NBA Brasil — passando por agências como Approach, Soko e Press Pass, construindo uma visão que atravessava culturas, linguagens e mercados. Ágata Cunha estava do lado dos eventos — Rock in Rio, Lollapalooza Brasil, Todo Mundo no Rio, Madonna em Copacabana, ArtRio, Carnaval na Sapucaí — acumulando uma leitura prática de como a comunicação funciona quando o show está acontecendo de verdade.
Michelle é graduada em Jornalismo, com pós-graduação em Marketing e Inovação. Ágata é jornalista com MBA em Marketing — foi justamente a pós que a revelou para a assessoria de imprensa. Duas trajetórias diferentes, duas formas de enxergar a comunicação — e uma visão compartilhada sobre o que faltava no mercado.

A Gira Hub nasceu dessa convergência. E o próprio nome carrega a filosofia: movimento, troca, circulação. Não uma agência estática — uma empresa capaz de conectar pessoas, histórias, oportunidades e diferentes áreas da comunicação. Hoje, o portfólio fala por si: Mano Brown, Racionais MC’s, BK’, Baco Exu do Blues, Gilsons, Afreekassia, Os Garotin, Delacruz, Duquesa, Rachel Reis, Deekapz, Mariana Volker — e o Afropunk Brasil.
A Sociedade que Nasceu da Diferença
A Gira Hub não começou com um plano de negócios pronto. Começou com uma percepção.
“A Gira nasceu muito mais de uma convergência do que de um plano de negócios pronto. Nós já tínhamos nossas trajetórias, experiências, relações e uma forma própria de enxergar a comunicação, e em determinado momento percebemos que fazia sentido juntar essas bagagens para construir algo nosso.”

O que poderia ser uma fragilidade — duas sócias com formas diferentes de trabalhar — virou a principal força da empresa.
“O mais interessante é que somos diferentes em vários aspectos, inclusive na maneira de trabalhar e de olhar para determinadas situações, e isso acabou se tornando uma força da sociedade. Não queríamos ser duas profissionais fazendo exatamente a mesma coisa. A complementaridade sempre foi importante.”
O que as unia, desde o início, era uma visão específica sobre o tipo de empresa que queriam construir.
“Queríamos construir uma empresa que tivesse estratégia, mas também sensibilidade; que pudesse atender grandes projetos sem perder proximidade; e que entendesse cultura não apenas como um segmento de mercado, mas como algo que exige repertório e responsabilidade.”
Um Portfólio que é uma Declaração
Olhar para o portfólio da Gira Hub e tentar encontrar um padrão não é difícil. Mano Brown, Racionais MC’s, BK’, Baco Exu do Blues, Afreekassia, Afropunk Brasil — há um fio que atravessa tudo. A pergunta é se isso foi planejado ou consequente.

“Acho que foi uma mistura das duas coisas. Não nos sentamos no início da Gira e fizemos uma lista dizendo: ‘esses são os únicos projetos que queremos atender’. Mas também não foi por acaso.”
A distinção que elas fazem sobre esse posicionamento é precisa — e importante.
“Existe também uma questão importante para nós, que é não tratar determinadas narrativas como tendência. A cultura negra, as periferias, o rap, a música brasileira e as novas cenas não aparecem na Gira porque ‘estão em alta’. Elas fazem parte do nosso repertório e da nossa leitura de mundo. Hoje entendemos que escolher os projetos que queremos ajudar a contar também é uma maneira de dizer quem somos enquanto Gira Hub.”
Quando o Artista Já é um Fenômeno
Assessorar Mano Brown ou os Racionais MC’s não é o mesmo que assessorar um artista em ascensão. O desafio é outro — e exige uma clareza sobre onde a assessoria começa e termina.
“Quando você trabalha com um artista consolidado, não está ali para ‘criar relevância’ para alguém que já é relevante. O trabalho passa por compreender aquela trajetória, o momento atual, o legado que já existe e quais novas conversas ainda podem ser construídas.”
A lógica que orienta esse trabalho é de curadoria, não de volume.
“Uma boa assessoria não é aquela que coloca o artista no maior número possível de lugares. É aquela que consegue construir contexto, proteger reputação e fazer com que cada movimento tenha coerência dentro de uma trajetória maior. Existe uma coisa que consideramos fundamental: saber que nem toda oportunidade é uma boa oportunidade. Às vezes, o nosso papel é justamente dizer ‘isso não faz sentido’. Comunicação também é escolha.”
Afropunk: Quando a Complexidade Muda de Tamanho
Ter o Afropunk Brasil no portfólio não é só uma questão de visibilidade. É uma questão de escala e de responsabilidade cultural simultâneas.

“O AFROPUNK tem uma dimensão muito especial para a Gira porque não é apenas um festival. É um projeto que reúne música, comportamento, estética, identidade, comunidade, mercado e uma discussão cultural muito maior.”
Essa dimensão muda o que a assessoria precisa entregar.
“Você não está trabalhando somente para divulgar um line-up ou gerar matérias sobre um evento. Existem muitas narrativas acontecendo simultaneamente, muitos públicos, artistas, parceiros e interesses diferentes. É preciso ter capacidade de planejamento, operação e resposta muito rápida, sem perder a compreensão cultural do que aquele projeto representa.”
Chegar à Mesa Como Donas do Negócio
A assessoria de imprensa no show business tem muitas mulheres. Mas quando se olha para os lugares de propriedade, negociação e tomada de decisão, essa presença diminui. Ágata e Michelle conhecem bem essa contradição — e falam sobre ela sem rodeios.

“Quando você deixa de chegar à mesa apenas como executiva ou prestadora de serviço e passa a chegar como dona de uma empresa, algumas relações mudam. Você está negociando preço, contrato, estrutura, equipe, limites e condições de trabalho. E isso também exige aprender a ocupar esse lugar.”
Elas reconhecem a pressão que existe nesse novo papel.
“Em alguns momentos percebemos, sim, que existe uma expectativa de que mulheres sejam mais flexíveis, cedam mais ou tenham dificuldade de estabelecer determinados limites. E empreender também nos ensinou muito sobre dizer não, precificar o nosso trabalho e entender o tamanho da responsabilidade que assumimos.”
“Sabemos que ocupar esse espaço importa. Principalmente porque outras mulheres também passam a enxergar a possibilidade de não estarem somente na execução, mas na propriedade, na liderança e na tomada de decisão.”
O Futuro da Comunicação de Artistas
Num mercado onde algoritmos distribuem conteúdo, IA escreve releases e qualquer artista pode falar diretamente com seu público, qual é o lugar de uma assessoria de imprensa?
Para a Gira, a resposta não passa pela negação da tecnologia — passa pela clareza sobre o que ela não resolve.
“Hoje existe uma quantidade absurda de conteúdo sendo produzida o tempo inteiro. Todo mundo publica, todo mundo pode ter audiência, os algoritmos interferem no que circula e um artista não depende mais exclusivamente da imprensa para falar com seu público. Só que justamente por existir tanto conteúdo, construir relevância ficou mais complexo.”
O que elas defendem como diferencial humano é específico.
“Entender o momento de uma conversa, perceber uma mudança de ambiente, construir confiança com um jornalista ao longo de anos, compreender as particularidades de um artista, identificar quando uma exposição pode ser positiva ou prejudicial e, principalmente, saber quando falar e quando não falar.”
E encerram com uma frase que serve de síntese para tudo que a Gira Hub representa.
“Ser visto ficou relativamente fácil. O desafio agora é ser compreendido, lembrado e permanecer relevante.”
