Bruna Suelen: A força de construir um novo olhar para a música a partir da Amazônia
Doutora em Artes, professora da rede pública e diretora criativa do Festival Psica, Bruna Suelen transita entre a academia, a educação e o show business para defender uma produção cultural que tenha identidade, território e protagonismo amazônico
Há diferentes caminhos para chegar ao show business. O de Bruna Suelen passa pela filosofia, pela arte, pela educação pública, pela cultura popular e pela pesquisa acadêmica. E talvez seja justamente essa trajetória, construída fora do circuito tradicional da indústria, que explique o olhar que ela leva hoje para um dos principais festivais do Norte do Brasil.
Doutora em Artes pela Universidade Federal do Pará (UFPA), professora efetiva e articuladora de formação de estratégias para a equidade racial na educação na SEDUC/PA, Bruna integra desde 2022 o Conselho Criativo do Festival Psica, onde hoje ocupa a Direção Criativa.
É uma rotina que, segundo ela, exige “navegar na cara e na coragem” — especialmente sendo mãe de duas crianças. Mas há uma lógica por trás de mundos que, à primeira vista, parecem tão diferentes.
“O pulo da gata é que essas esferas se alimentam.”
Sua pesquisa acadêmica passou a ter o próprio Psica como objeto. Artigos, estudos e o planejamento de um pós-doutorado são, para Bruna, ferramentas para compreender a potência do festival e também para construir sua direção criativa.
É dessa interseção que surgem projetos como o Manifesto e o Cortejo de Abertura, além da contribuição para outras áreas do festival.

Ao mesmo tempo, o trabalho na educação pública coloca Bruna diariamente em contato com jovens em situação de vulnerabilidade socioeducacional. Essa experiência, segundo ela, influencia diretamente sua percepção sobre cultura, público e território.
“É essa realidade dura e urgente da escola pública que me dá a sensibilidade necessária para desenvolver um conceito de festival que seja educativo, crítico e combativo, totalmente enraizado na nossa realidade amazônica.”
O Norte no centro da própria narrativa
Para Bruna, discutir a descentralização da indústria cultural brasileira passa primeiro por questionar a maneira como o Norte historicamente foi enxergado pelo restante do país.
Ela não fala em “descobrir” uma potência amazônica. Para ela, essa potência sempre esteve ali — no território, na ancestralidade e na maneira como as pessoas da região se relacionam com o lugar onde vivem. O que precisa mudar é quem tem o direito de contar essa história.
Bruna critica uma lógica de mercado em que produções do eixo Sul-Sudeste acabam assumindo o protagonismo de criações originadas na Amazônia, enquanto artistas e produtores locais permanecem em posições secundárias.
“Ninguém melhor do que nós para pautar a nossa própria narrativa.”
É nesse ponto que ela enxerga o papel do Psica.

Para Bruna, o festival atua na contramão dessa lógica ao colocar a personalidade amazônica no centro da experiência. Isso significa não apenas contratar artistas da região, mas construir um evento que considere o território, seus ritmos, suas dificuldades de acesso e suas próprias formas de produção.
“Aquilo que historicamente nos foi negado, agora nós mesmos estamos nos dando.”
A afirmação resume uma visão que vai além da programação artística. É uma discussão sobre protagonismo, autonomia e sobre quem ocupa os espaços de decisão dentro da indústria brasileira.
Uma diretora criativa que chegou por outro caminho
Bruna também não construiu sua carreira dentro de uma trajetória convencional do mercado de entretenimento.
Menina pobre e periférica, estudante de Filosofia, produtora de cultura popular e posteriormente pesquisadora e doutora em Artes pela universidade pública, ela chegou à indústria carregando referências diferentes das que normalmente dominam as estruturas tradicionais do show business.
Essa experiência fez com que desenvolvesse uma compreensão da arte que não está limitada à sua dimensão comercial.
“Eu a compreendo em sua esfera de função social, para além da mercadoria.”
Para Bruna, essa perspectiva também influencia sua relação com o público. A experiência de ter vivido situações de vulnerabilidade social permite, segundo ela, enxergar determinados desejos e necessidades que nem sempre são perceptíveis para quem esteve distante dessa realidade.
E há uma contradição interessante nessa relação com o mercado: Bruna diz não ter interesse em dominar completamente sua lógica. Talvez porque seu trabalho esteja justamente em tensioná-la.
Ela reconhece ambientes de decisão ainda marcados por disputas de ego e estruturas predominantemente masculinas e defende a ampliação dos espaços para que mulheres possam construir novas formas de liderança.
“Meu sonho romântico era poder estar em espaços de decisões menos fálicos, que tivéssemos mais oportunidades de construir às nossas maneiras… mas, é dinheiro né. Então, sigamos fazendo o (im)possível.”
Quando estar ao vivo se torna resistência
Em um momento em que inteligência artificial, plataformas digitais e novas tecnologias transformam a maneira como música e entretenimento são produzidos e consumidos, Bruna vê justamente na experiência presencial uma de suas maiores forças.
Para ela, fazer música ao vivo em um mundo cada vez mais acelerado é também uma forma de resistência.

A tecnologia pode reproduzir sons, imagens e experiências cada vez mais sofisticadas. Mas não substitui completamente aquilo que acontece quando milhares de pessoas compartilham o mesmo espaço, a mesma música e a mesma energia.
É por isso que, em sua visão, os festivais ganham uma relevância que ultrapassa o entretenimento. São espaços de encontro. E, no caso do Psica, esse encontro precisa partir do território onde ele acontece.
Bruna acredita que a descentralização da indústria brasileira não deveria significar simplesmente reproduzir no Norte os modelos criados no eixo Sul-Sudeste.
O caminho, para ela, é outro: cada região encontrar sua própria forma de produzir, criar e ocupar o mercado.
“O verdadeiro caminho para a descentralização do mercado não é copiar o eixo Sul-Sudeste, mas sim cada território encontrar a sua própria forma, a sua potência ancestral, e dividirmos essas riquezas uns com os outros, em rede.”
Uma nova direção para o show business
A trajetória de Bruna Suelen representa uma transformação que acontece silenciosamente em diferentes pontos da indústria brasileira: profissionais que chegam ao show business trazendo experiências de outros campos e, ao ocupar posições estratégicas, passam a questionar modelos que durante décadas pareceram estabelecidos.
Na Direção Criativa do Festival Psica, ela encontrou um espaço para unir pesquisa, educação, cultura popular, pensamento decolonial e produção cultural.
Mais do que levar o Norte para o circuito nacional, sua proposta é ajudar a construir um circuito em que o Norte não precise pedir licença para ser protagonista.
E talvez essa seja uma das principais contribuições de profissionais como Bruna para o futuro da música ao vivo no Brasil: mostrar que descentralizar o mercado não significa distribuir o mesmo modelo por diferentes regiões.
Significa permitir que diferentes territórios tenham a oportunidade de criar seus próprios modelos — e fazer com que o restante do país aprenda a reconhecê-los.
#BrunaMoveOMercado
