Cláudia Parra: da Tese ao Festival, uma Trajetória que Redefine o Que É Ser Curadora no Brasil
Doutora em Letras, curadora de festivais, DJ e fundadora da Cultura Sonora e do Clube Feminino do Disco, ela transformou pesquisa musical em produto de mercado — e prova que o interior do Brasil não quer uma versão simplificada da cultura
Existe um tipo de profissional que o mercado cultural brasileiro ainda não sabe muito bem como nomear. Não é só pesquisadora. Não é só curadora. Não é só DJ. Não é só produtora. Cláudia Parra é tudo isso ao mesmo tempo — e a trajetória que une essas funções é mais coerente do que parece à primeira vista.
Doutora em Letras pela UNESP de São José do Rio Preto, ela passou quase vinte anos como educadora no ensino regular e superior antes de fundar, em 2021, a Cultura Sonora — projeto que começou como página no Instagram para falar sobre música e cultura musical, e se transformou em operação real de curadoria, produção e pesquisa no ecossistema do show business brasileiro. Em 2025, fundou o Clube Feminino do Disco de Ribeirão Preto. Ao longo do caminho, virou DJ com residência semanal, embaixadora do WME e curadora de festivais como o FestMAO 2024 e o Kiss Rock Festival 2025.

Tudo isso a partir de Ribeirão Preto. Sem mudar para São Paulo. Sem esperar o mercado chegar até ela.
Da Gaveta ao Ecossistema
A transição da academia para o mercado de música não foi uma ruptura. Foi, nas palavras dela, “uma extensão orgânica” de uma trajetória que sempre esteve conectada à música — mesmo quando o caminho passava por Letras, literatura e sala de aula.

“A criação da Cultsonora surgiu dessa necessidade de trazer a música mais para perto de mim, do meu cotidiano. Significou tirar as ideias e meu potencial musical da gaveta e levá-los para o ecossistema da música viva.”
O projeto começou nas redes sociais como espaço de compartilhamento de pesquisa sobre cultura musical. Rapidamente evoluiu para curadoria e produção de projetos presenciais porque, segundo ela, “o mercado demandou esse conteúdo qualificado.” A frase resume algo importante: não foi ela que convenceu o mercado de que precisava do que ela oferecia. Foi o mercado que percebeu a lacuna.
“Hoje eu consigo entender que eu preenchi uma lacuna no mercado de produção de conteúdo. A Cultsonora entregou conteúdo musical honesto e profundo de maneira simples e descomplicada.”
Da página no Instagram ao SESC Ribeirão Preto, aos festivais, às feiras de vinil, às palestras nas universidades — o ecossistema foi crescendo projeto a projeto, sem saltar etapas.
Curadoria É o Cérebro da Operação — Não um Capricho Estético
Em 2025, Cláudia deu uma palestra na Livraria Travessa de Ribeirão Preto com um título que resume bem onde ela está posicionada: “O mercado da música e as políticas de fomento: A música como empreendedorismo cultural.” Não é o tipo de conversa que a maioria dos curadores musicais brasileiros está tendo publicamente.

Ela tem uma visão clara e incômoda sobre como o mercado trata a curadoria — e não poupa palavras.
“O problema do setor é continuar enxergando a curadoria apenas como uma escolha estética ou paixão intuitiva, descolada da dimensão econômica. Curadoria é estratégia, inteligência de mercado e construção de valor patrimonial e simbólico para eventos, marcas e festivais.”
O impacto prático dessa visão equivocada é direto. “Uma escolha de repertório ou de line-up mal executada impacta diretamente o engajamento, a experiência do público e a viabilidade financeira do projeto.”
O que ela defende como solução não é filosófico — é operacional.
“É preciso profissionalizar a narrativa da categoria. Isso passa por remuneração condizente com a complexidade técnica do trabalho, dominar as dinâmicas de dados e de comportamento de consumo, e ocupar espaços de debate sobre políticas de fomento e economia criativa.”
E encerra com uma frase que deveria estar em qualquer briefing de festival:
“Fomento não é caridade, é investimento em uma cadeia produtiva que movimenta renda, empregos e turismo cultural. A curadoria precisa ser vista como o cérebro dessa operação.”
O Clube, as Pistas e o Questionamento Velado
Desde 2023, Cláudia é embaixadora do WME — o Women’s Music Event, maior movimento de protagonismo feminino na música brasileira. Em 2025, fundou o Clube Feminino do Disco de Ribeirão Preto, com encontros mensais e gratuitos para escuta, palestras e conversas sobre álbuns. Ao mesmo tempo, sua carreira como DJ ganhou força de forma natural — residência semanal em Ribeirão Preto, apresentações em festivais e aberturas de shows, e espaços em São Paulo como Soho House, Domo e Starlane.
São dois mundos aparentemente distantes. Ela vê um fio único conectando os dois.
“Desde o início, seja na pesquisa musical, na produção ou como DJ, a questão do protagonismo feminino esteve sempre presente por conta de uma realidade clara: o espaço da crítica e da técnica musical é predominantemente masculino.”
O Clube Feminino do Disco nasceu como resposta a isso — um ambiente onde mulheres compartilham conhecimento “sem a necessidade de provar nada a ninguém.” Mas é na pista que o problema aparece com mais nitidez.
“O maior desafio para as mulheres na música ainda é o questionamento velado da nossa capacidade técnica e estratégica. Muitas vezes, a presença feminina é tolerada como cota ou fetiche visual, mas não respeitada no momento das tomadas de decisão, na mesa de som ou na negociação de cachês.”
A conclusão que ela tira desses dois universos é precisa.
“Não basta abrir portas; é preciso garantir a permanência, a remuneração justa e a liderança real das mulheres em todas as pontas da cadeia da música.”
Ribeirão Preto Como Argumento
Toda a operação da Cláudia parte de Ribeirão Preto. Não como limitação — como posicionamento. E o que ela viu ao longo de cinco anos construindo projetos na cidade diz algo que o mercado ainda não ouviu direito.
“A descentralização cultural não é apenas uma escolha política, mas uma oportunidade econômica real. Cidades do interior possuem público sedento por programação de alto nível e equipamentos culturais consolidados.”
Ela é direta sobre o que esse público não aceita.
“O público do interior não quer consumir uma ‘versão simplificada’ do que acontece nas capitais; esse público exige e merece a mesma qualidade curatorial e técnica.”
E aponta com precisão onde está o gargalo.
“O que ainda falta para que a indústria tradicional leve esses mercados a sério é superar a visão viciada de que o investimento deve ficar concentrado apenas no eixo São Paulo–Rio. Falta infraestrutura de articulação entre os polos regionais e um olhar das marcas patrocinadoras para o potencial do público de cidades do interior.”
#ClaudiaMoveOMercado