Mariana Martins: da estrada à gestão, ela construiu um ecossistema que leva artistas da composição ao palco
Fundadora da No Santo Som, ela passou pela produção de estrada, pela produção executiva e hoje cuida de carreiras e lança artistas. Uma década navegando por todas as funções da indústria — e o que isso ensina sobre gestão que nenhum curso entrega
Tem um tipo de conhecimento que não se aprende em sala de aula; aprende-se na estrada, nos bastidores de um show que precisa acontecer independentemente das circunstâncias, na relação diária entre o que o artista quer criar e o que o mercado está exigindo naquele momento. Mariana Martins passou por tudo isso — e foi exatamente essa travessia que a tornou o tipo de gestora que é hoje.
Formada em Relações Públicas com ênfase em Comunicação Social, ela construiu sua carreira percorrendo funções que poucas pessoas conseguem dominar ao mesmo tempo: produtora de estrada, produtora executiva e, agora, fundadora da No Santo Som — produtora focada em gestão de carreira, projetos especiais e selo musical. Sob seus cuidados estão as carreiras de Ana Gabriela, João Lucas, Geórgia e Marco Baptista.

O caminho até aqui passou por nomes que formam uma lista representativa do melhor da música brasileira contemporânea. Entre 2013 e 2018, atuou como produtora executiva na Distribuidora de Shows e na F/Simas. Na estrada, trabalhou com Ana Gabriela, Manu Gavassi, Anavitória e Os Arrais. Produziu shows de Maria Gadú, Nando Reis, Thaís Gulin, Ana Cañas, Jesuton, Melim e Outroeu. Cada nome representa um tipo diferente de carreira, de público, de demanda. E cada um deles deixou algo.

O Que a Estrada Ensina que Nenhuma Outra Função Ensina
Existe uma hierarquia não declarada na indústria musical brasileira sobre o tipo de conhecimento que cada função gera. A produção de estrada está no nível mais concreto dessa hierarquia — é onde o planejamento encontra a realidade, onde o que foi combinado precisa acontecer de qualquer forma, e onde o público dá o veredicto final sobre tudo que foi construído antes.
“A estrada é a entrega final de um trabalho que começa na composição, passa pela produção, pelo lançamento e chega ao palco”, diz Mariana. “É ali que você sente a resposta mais verdadeira do público e entende, na prática, o impacto da música.”
Quando essa experiência se somou à produção executiva — com toda a complexidade de montar shows, formar equipes e administrar uma carreira num país tão diverso quanto o Brasil — ela começou a construir o que define seu trabalho hoje: uma visão 360° que vai da composição ao palco, da estratégia à execução.
“Hoje, na gestão de carreira, carrego toda essa bagagem. Entender cada etapa facilita tanto o planejamento estratégico quanto a condução das equipes envolvidas no projeto.”
O selo nasceu desse mesmo lugar. Não como movimento de mercado, mas como vontade genuína de descobrir artistas novos, acompanhar o comportamento do público e encontrar as melhores formas de fazer a música chegar às pessoas.
Arte e Mercado: o Maior Desafio da Gestão 360°
Gerir a carreira de um artista em todas as fases ao mesmo tempo exige uma habilidade que raramente aparece nas descrições de cargo: saber quando frear.
O mercado de hoje impõe uma pressão constante de presença. O algoritmo exige constância. As redes sociais exigem frequência. E o artista — que precisa de tempo, de vivência e de espaço para criar — está no meio dessa equação, frequentemente comprimido entre o que sente e o que é esperado.
“Vivemos um momento em que existe uma pressão enorme para que o artista esteja presente o tempo todo nas redes sociais. O algoritmo exige constância, mas o processo criativo não funciona na mesma velocidade”, observa Mariana.
É uma tensão que ela conhece de perto — e que organiza seu trabalho.
“A música nasce das vivências do artista, da sua sensibilidade e do tempo necessário para criar. Quando existe uma cobrança excessiva por conteúdo, isso pode afetar justamente a fonte de onde nasce a arte.”
O modelo 360° da No Santo Som faz mais sentido nesse contexto. Quando a mesma gestora que conhece o processo criativo do artista também cuida da sua estratégia de lançamento e da sua presença nas redes, as decisões ganham coerência. Cada escolha é pensada respeitando a identidade de quem está sendo representado — e não apenas o timing do algoritmo.
Ser Mulher na Estrada
A produção de estrada é uma das funções mais exigentes e menos visíveis da indústria. Logística de turnê, gestão de equipes em movimento, resolução de problemas em tempo real, pressão constante. É um ambiente historicamente dominado por homens — e Mariana navegou por ele sem pedir licença.

“Foi uma experiência que me ensinou muito e ajudou a construir a profissional que sou hoje. A estrada me deu uma visão prática da indústria e também uma casca importante para enfrentar os desafios da profissão.”
Ela não esquiva do que foi real.
“Seria impossível dizer que ser mulher nunca fez diferença. Em muitos momentos precisei provar minha capacidade mais de uma vez ou buscar uma validação que, muitas vezes, não era exigida dos homens.”
Mas ela também guarda algo além da dificuldade.
“Tive a sorte de trabalhar com muitos homens que foram parceiros e incentivaram meu crescimento profissional.” E enxerga com clareza o que ainda precisa acontecer. “O próximo passo é continuar dando visibilidade para essas mulheres e criar ambientes de trabalho cada vez mais saudáveis.”

O conselho que deixa para quem está começando é direto, sem romantismo: “Não aceite permanecer em um lugar onde você precisa provar o seu valor todos os dias. Procure equipes que respeitem o seu trabalho e permitam que você cresça.”
Streaming, IA e a Pergunta que Toda a Indústria Ainda Está Tentando Responder
Transformar números de streaming em público ao vivo segue sendo um dos maiores desafios do mercado musical brasileiro. É uma equação que toda gestora, todo produtor e toda tiqueteira conhece — e que ninguém resolveu completamente.
“Um play não significa, necessariamente, uma comunidade. O show acontece quando existe vínculo, quando o público acompanha aquela história e quer fazer parte dela”, diz Mariana.
Ela acredita que a tecnologia — o streaming, a IA, as redes sociais — é ferramenta, não caminho. O caminho é outro.
“Ainda estamos vivendo essa transformação, então ninguém tem todas as respostas. Mas acredito que o caminho está em usar a tecnologia como ferramenta, sem perder aquilo que faz a música atravessar o tempo: uma boa história, uma conexão verdadeira com o público e um artista que saiba quem é.”
E ali, no meio da conversa sobre algoritmos e inteligência artificial, ela lança uma observação que resume a filosofia por trás de tudo que construiu.
“A gente vê músicas de anos atrás voltando ao topo porque criaram uma conexão real com as pessoas. É essa força que permanece.”
#MarianaMoveOMercado