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Por que M&A se tornou uma das principais estratégias das grandes empresas do show business

De plataformas de ticketing a produtoras, festivais, venues e empresas de gestão de artistas, grandes grupos do entretenimento estão usando fusões e aquisições para acelerar expansão, ganhar escala e controlar ativos estratégicos do mercado de música ao vivo

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No show business, crescer nem sempre significa abrir uma nova operação do zero. Para os maiores grupos do setor, muitas vezes o caminho mais rápido para conquistar uma nova praça, uma nova tecnologia, uma carteira de produtores ou até mesmo um festival consolidado é comprar quem já construiu esse ativo.

A estratégia de M&A — sigla para mergers and acquisitions, ou fusões e aquisições — vem se tornando uma ferramenta importante na expansão das grandes empresas de entretenimento. E os movimentos da Live Nation Entertainment e da Ticketmaster mostram como essa estratégia pode ir muito além da simples aquisição de receita.

O caso mais recente no Brasil é um exemplo claro. Em novembro de 2025, a Ticketmaster anunciou a aquisição da BaladAPP, plataforma brasileira de gestão e venda de ingressos com forte presença no Centro-Oeste e no mercado sertanejo. Segundo a própria Ticketmaster, a BaladAPP tinha mais de 6 milhões de usuários cadastrados, atendia mais de 200 produtores em 167 cidades e acumulava forte conhecimento do mercado regional.

Na prática, a aquisição não representa apenas a incorporação de uma empresa de tecnologia. Ela dá à Ticketmaster acesso imediato a uma rede de produtores, consumidores, eventos e mercados regionais que levariam anos para serem construídos organicamente. A própria companhia afirmou que a operação permitiria aprofundar o relacionamento com produtores locais e acelerar sua transformação tecnológica no Brasil.

Comprar para entrar mais rápido

É justamente essa uma das principais razões pelas quais M&A se tornou tão relevante no show business: tempo também é um ativo competitivo.

Construir uma operação em uma nova região exige contratação de equipes, conquista de clientes, desenvolvimento de tecnologia, relacionamento com produtores, conhecimento regulatório e, principalmente, confiança do mercado.

Uma aquisição pode encurtar boa parte desse caminho.

Foi o que aconteceu em diferentes momentos da expansão internacional da Live Nation. Em 2018, por exemplo, a companhia adquiriu 50% da Rock City, empresa brasileira que detém 80% da Rock World, responsável pela operação do Rock in Rio. O negócio colocou a maior empresa global de entretenimento ao vivo ao lado de uma das propriedades mais relevantes da música brasileira.

Na época, Roberto Medina e sua equipe continuaram à frente da produção do festival, enquanto a entrada da Live Nation ampliava as possibilidades de escala e internacionalização da propriedade. A própria companhia americana descreveu o movimento como uma oportunidade de reunir o alcance global da Live Nation com a força do Rock in Rio.

É uma lógica recorrente no setor: em vez de construir uma marca do zero, comprar participação em uma propriedade que já possui audiência, reputação e mercado.

De empresas a ecossistemas

Talvez o melhor exemplo dessa estratégia seja a aquisição da OCESA pela Live Nation.

Em 2021, a companhia concluiu a compra de uma participação controladora de 51% da empresa mexicana. A OCESA não era apenas uma promotora: o negócio envolvia operações de ticketing, venues, patrocínio, alimentação e bebidas, além de participação em gestão de artistas e outros negócios relacionados ao entretenimento.

O valor estratégico, portanto, estava justamente na combinação desses ativos.

Uma produtora que controla ou participa de diferentes etapas da cadeia consegue capturar mais informações sobre o consumidor, criar novas oportunidades comerciais e reduzir sua dependência de terceiros.

É a diferença entre simplesmente produzir um show e participar de várias partes da economia que existe ao redor dele.

A lógica aparece também em outras aquisições da companhia.

Em 2014, a Live Nation adquiriu participação de controle na C3 Presents, uma das principais promotoras dos Estados Unidos, responsável pelo Austin City Limits e pela produção do Lollapalooza, além de centenas de outros eventos.

No ticketing, a estratégia foi semelhante. Em 2015, a Ticketmaster adquiriu a Front Gate Tickets, especializada em festivais, e a Universe, plataforma voltada ao chamado DIY ticketing. O objetivo declarado era ampliar a oferta de soluções para diferentes tipos de eventos e aumentar a capacidade de distribuição e relacionamento com fãs.

Ou seja: cada aquisição acrescenta uma peça ao ecossistema.

A expansão não acontece apenas nos grandes mercados

Outro aspecto importante é que M&A permite às grandes empresas entrar em mercados onde o conhecimento local é determinante.

Em 2018, a Live Nation adquiriu participação majoritária na argentina DF Entertainment, uma das principais promotoras independentes do país. A empresa já tinha uma operação estabelecida e mais de 500 mil ingressos vendidos em 2018, além de atuação com artistas e festivais.

Mais recentemente, a estratégia continuou.

Em 2024, a Ticketmaster anunciou a aquisição da Quicket, empresa de ticketing com presença em países africanos como África do Sul, Nigéria, Uganda, Quênia, Zâmbia e Botsuana. A operação combinava a tecnologia e escala global da Ticketmaster com o conhecimento regional da empresa adquirida.

Em 2025, a Live Nation anunciou a aquisição da japonesa Hayashi International Promotions (HIP), uma das principais promotoras do país. Segundo a companhia, a combinação permitiria unir a rede global da Live Nation ao conhecimento local da HIP.

No mesmo ano, a empresa adquiriu a SD Concerts, uma das principais companhias de entretenimento da República Dominicana, ampliando sua presença na América Latina e no circuito de turnês da região.

E, em 2026, a estratégia ganhou outro componente: infraestrutura. A Live Nation anunciou acordo para adquirir a ForumNet Group, operadora italiana responsável pelo Unipol Forum, uma das principais arenas do país.

A mensagem é clara: o ativo estratégico pode ser uma promotora, uma plataforma, um festival, uma empresa de gestão, uma marca ou um venue.

O que as grandes empresas estão realmente comprando?

É aqui que M&A se torna particularmente interessante para o show business.

Quando uma grande companhia compra uma empresa menor, ela não está necessariamente comprando apenas faturamento.

Ela pode estar comprando:

Relacionamento.
Acesso a produtores, artistas, patrocinadores e parceiros que já confiam naquela empresa.

Geografia.
Uma presença consolidada em uma cidade, região ou país.

Tecnologia.
Plataformas, ferramentas e infraestrutura que poderiam levar anos para serem desenvolvidas internamente.

Dados.
Informações sobre consumidores, comportamento de compra, demanda e histórico de eventos.

Propriedade intelectual.
Festivais e marcas capazes de gerar novas edições, extensões internacionais e acordos comerciais.

Infraestrutura.
Venues, arenas e outros ativos físicos capazes de garantir acesso ao calendário e ao público.

Capital humano.
Executivos e equipes que conhecem profundamente determinado mercado.

E, talvez acima de tudo, tempo.

M&A como acelerador de escala

A expansão orgânica continua sendo fundamental, mas existe um limite para a velocidade com que uma empresa consegue construir novos mercados.

Uma aquisição pode transformar esse cenário.

Em vez de começar com zero produtores, zero eventos e zero consumidores em uma nova região, uma companhia pode começar com uma operação existente — e então adicionar sua própria tecnologia, capital, distribuição e capacidade comercial.

É por isso que a estratégia aparece com tanta frequência entre os maiores players globais.

Os relatórios financeiros da Live Nation mostram que a companhia continua realizando aquisições em diferentes partes de seu ecossistema. Em 2024, por exemplo, a empresa registrou aquisições relacionadas a negócios de gestão de artistas e promoção de festivais e concertos nos Estados Unidos, enquanto aquisições anteriores incluíram negócios de venues, festivais e promoção na Europa e na América do Sul.

Não se trata, portanto, de movimentos isolados.

Existe uma lógica de longo prazo: adicionar ativos capazes de ampliar a escala e a presença da companhia dentro da cadeia do entretenimento ao vivo.

O que isso significa para o mercado brasileiro?

A aquisição da BaladAPP pela Ticketmaster ganha ainda mais relevância quando colocada nesse contexto.

O Brasil é um mercado grande, territorialmente fragmentado e com características regionais muito diferentes. Para uma companhia global, conhecer profundamente cada praça é tão importante quanto possuir tecnologia.

Ao incorporar uma empresa com presença em 167 cidades e relacionamento com mais de 200 produtores, a Ticketmaster não está apenas aumentando seu portfólio de ticketing. Está acelerando sua penetração em mercados onde a presença local pode fazer diferença.

O movimento também mostra que o mercado brasileiro pode entrar cada vez mais no radar de estratégias internacionais de consolidação.

E isso abre uma questão importante para os próximos anos:

Quantas empresas independentes brasileiras possuem ativos que podem se tornar estratégicos para grandes grupos?

Uma plataforma de ticketing com forte presença regional. Uma produtora com relacionamento consolidado em determinada praça. Um festival com uma marca reconhecida. Um venue bem localizado. Uma empresa especializada em tecnologia ou gestão de eventos.

Em um mercado cada vez mais orientado por escala, dados e acesso ao consumidor, esses ativos podem valer muito mais do que seu faturamento isoladamente sugere.

O próximo capítulo da consolidação

O show business sempre foi um mercado baseado em relacionamentos. Mas, à medida que a indústria se profissionaliza e se torna mais orientada por dados, tecnologia e escala, esses relacionamentos passam a ter valor estratégico ainda maior.

As movimentações da Live Nation e da Ticketmaster mostram diferentes caminhos para alcançar esse objetivo: comprar tecnologia, entrar em novos países, adquirir produtoras, assumir participação em festivais, ampliar o portfólio de venues ou incorporar empresas que já possuem uma relação consolidada com artistas e fãs.

No fim, M&A não é apenas sobre comprar uma empresa.

É sobre comprar uma posição estratégica dentro do mercado.

E, para as grandes companhias do entretenimento ao vivo, essa pode ser uma das formas mais rápidas de decidir não apenas onde estarão amanhã — mas qual parte do mercado querem controlar quando chegarem lá.