Jany Lima: ela transformou comunicação em estratégia de negócio no entretenimento
Diretora Artística da Rádio Disney Brasil e Vice-Presidente da Abrape, ela construiu um ecossistema que conecta comunicação, música e eventos — e defende que o próximo passo das mulheres no show business não é apenas participar dos projetos, mas decidir quais merecem existir
Aos 12 anos, Jany Lima já estava atrás de um microfone. Não como hobby. Como escola. O rádio foi onde ela aprendeu a perceber pessoas antes de aprender qualquer coisa sobre estratégia, audiência ou negócios. E essa sequência — primeiro perceber, depois decidir — acabou definindo uma carreira inteira.

Jornalista de formação, ela passou pelos primeiros anos de carreira entre emissoras do Paraná, ocupando funções que iam de locutora a editora-chefe, de diretora de programação a apresentadora de TV. No Cinesystem Cinemas, onde atuou como Diretora de Marketing por cinco anos, chegou a ter uma ação promocional destacada pela revista Variety — publicação de referência global do entretenimento. Na Rede Massa SBT Paraná, criou, produziu e apresentou o programa Credencial, voltado ao público jovem, entre 2006 e 2010.

Mas foi ao longo de 14 anos no Grupo Maringá de Comunicação — passando por coordenação artística da Mix FM, direção artística da Rádio Maringá FM e direção de conteúdo — que ela foi construindo o que hoje define seu trabalho: a capacidade de olhar para comunicação, música e eventos como partes de um mesmo ecossistema.
Hoje, Jany é Diretora Artística da Rádio Disney Brasil, sócia-fundadora da GMC Eventos e Vice-Presidente da Abrape — a Associação Brasileira dos Promotores de Eventos, entidade com mais de 300 associados que representa a cadeia produtiva de eventos no Brasil. Uma promoção que veio após cinco anos como Diretora de Comunicação e Marketing da associação. Completa o quadro uma formação em Foresight pelo Future Today Institute — inspirada pela futurista Amy Webb — e passagens pelo SXSW em Austin e pela NAB Show em Las Vegas, uma das maiores feiras globais de rádio e TV.
O que o Rádio Ensina que a Produção Raramente Percebe
Existe uma pergunta que Jany carrega desde o começo da carreira: por que produtos tecnicamente impecáveis podem ser completamente irrelevantes? A resposta, ela diz, estava no rádio desde o início.
“No rádio, você fala sem ver quem está do outro lado. Isso desenvolve uma sensibilidade muito particular para atenção, identificação, desejo e pertencimento.”
Quando esse olhar migrou para o universo de eventos e gestão de carreiras artísticas, ela percebeu que os mercados disputavam essencialmente a mesma coisa. “Relevância na vida das pessoas”, define. E relevância não é consequência automática de qualidade técnica.
“Um produto tecnicamente impecável pode ser absolutamente irrelevante se não construir significado. Um show não começa quando o artista sobe ao palco. Começa na expectativa, na narrativa e na forma como aquela experiência entra na conversa das pessoas.”
É dessa lógica que nasce o que ela chama de ecossistema. “O rádio gera descoberta e frequência. O artista gera identidade e comunidade. O evento transforma essa relação em experiência física e memória.” Na Rádio Disney Brasil, onde atua como Diretora Artística, essa visão integrada tem se traduzido em crescimento consistente da emissora em São Paulo — resultado de um processo que combina programação, comportamento de audiência e posicionamento de forma deliberada.

“Minha formação como comunicadora me deu um radar para comportamento. A experiência em gestão me ensinou a transformar esse radar em decisão. E, no entretenimento, perceber uma mudança de comportamento antes de ela aparecer claramente nos indicadores pode representar uma vantagem competitiva enorme.”
Foresight: o Futuro como Ferramenta de Gestão
Jany não usa a palavra “tendência” da forma como o mercado costuma usar. Para ela, o futuro não é algo que se prevê — é algo que se prepara.
“Foresight mudou a minha relação com a tomada de decisão. O futuro deixou de ser um exercício de previsão e passou a ser uma ferramenta de gestão.”
A pergunta que ela faz não é “o que vai acontecer?”, mas “se esse movimento ganhar escala, o que muda no meu negócio e o que eu preciso começar a testar agora?” Participar do SXSW e da NAB Show reforçou essa visão — porque nesses ambientes ela percebeu que discussões aparentemente isoladas estavam convergindo. IA, creator economy, personalização, dados e novas interfaces não são tendências separadas. Juntas, redesenham a relação entre conteúdo, distribuição e audiência.

Ela enxerga quatro movimentos que vão transformar o entretenimento nos próximos anos.
O primeiro é a hiperpersonalização.
“Durante décadas construímos produtos para grandes massas. Agora caminhamos para experiências capazes de reconhecer contexto, comportamento e preferências individuais.”
O segundo é a transformação da audiência em participante.
“O entretenimento passivo perde força. As pessoas querem interferir, cocriar e pertencer. Isso muda rádio, festivais, shows e a própria relação entre artistas e fãs.”
O terceiro é a transformação dos eventos em plataformas de mídia e comunidade.
“Um festival ou um show não pode existir economicamente e culturalmente apenas nas horas em que o palco está ligado. Existe uma enorme oportunidade de construir conteúdo, relacionamento, dados e propriedade intelectual antes, durante e depois do evento.”
E o quarto é a inteligência artificial nos bastidores.
“Fala-se muito sobre IA criando música ou conteúdo, mas talvez uma das maiores transformações aconteça na tomada de decisão: previsão de demanda, leitura de comportamento, personalização de comunicação e alocação mais inteligente de recursos.”
Mas há um paradoxo que ela considera fascinante — e que resume sua visão sobre o futuro.
“Quanto mais tecnologia tivermos, mais valiosas serão as experiências genuinamente humanas. O futuro do entretenimento não será tecnológico ou humano. Será de quem souber desenhar melhor a relação entre os dois.”
Os Lugares Onde os Contratos São Assinados
Jany Lima não fala sobre liderança feminina no show business com o tom de quem observa o problema de fora. Ela fala de dentro — e com uma precisão que só vem de quem viveu o que está descrevendo.
“Durante muito tempo, as mulheres foram fundamentais para a operação do entretenimento, mas permaneceram distantes dos espaços de decisão econômica. Nós organizávamos, comunicávamos, cuidávamos das relações e resolvíamos crises. Quando chegava o momento de discutir sociedade, investimento, participação ou estratégia financeira, a mesa frequentemente ainda era masculina.”
E então ela nomeia algo que raramente aparece nessa conversa.
“Competência operacional não garante poder de decisão.”
– Jany Lima
Para ocupar os espaços que queria, ela precisou ampliar deliberadamente seu repertório — negociação, contratos, modelos de negócio, estratégia e estrutura financeira.
“Minha carreira começou atrás de um microfone, mas hoje participo de decisões que envolvem audiência, receita, risco, investimentos, sociedades e construção de ativos no entretenimento. Existe uma diferença enorme entre trabalhar em um mercado e construir patrimônio dentro desse mercado.”
Por isso, o que ela defende vai além da representatividade.
“Precisamos de mais mulheres discutindo equity, participação societária, propriedade intelectual e investimento. Precisamos estar na criação dos projetos, mas também no cap table. Muitas mulheres foram treinadas para serem extremamente competentes e responsáveis, mas não necessariamente para negociar poder, participação ou upside. O mercado também precisa abrir essas mesas, evidentemente, mas nós precisamos chegar a elas preparadas para discutir os números e fazer as perguntas difíceis.”
Sobre o próximo capítulo da sua própria carreira, ela é direta.
“Não quero apenas participar de projetos importantes. Quero ajudar a decidir quais projetos merecem existir, como serão estruturados e qual impacto econômico e cultural podem gerar.”
E encerra com uma definição de liderança que serve como síntese de tudo que ela construiu.
“Liderança é cada vez menos sobre estar no centro da operação e cada vez mais sobre melhorar a qualidade das decisões que definem o futuro de um negócio.”
#JanyMoveOMercado