Monique Dardenne: A mulher por trás do maior movimento de protagonismo feminino da música brasileira
Co-fundadora do Women's Music Event, ela trouxe o Boiler Room para o Brasil, geriu selos que lançaram uma geração inteira de artistas e criou o único ecossistema organizado de equidade de gênero na indústria musical brasileira. Esta é a história de quem não esperou o mercado mudar para começar a mudá-lo
Há profissionais que esperam o mercado abrir espaço. E há os que entendem cedo que o espaço se abre para quem já está em movimento. Monique Dardenne pertence à segunda categoria — e carrega isso não como filosofia, mas como método de trabalho comprovado ao longo de vinte anos numa das indústrias mais competitivas e menos transparentes do mundo.

Formada em direito, ela nunca exerceu a profissão. Em vez disso, escolheu a música — e a música a colocou em posições que exigiam, ao mesmo tempo, a precisão de um contrato, a visão de um estrategista e o ouvido de quem realmente entende o que está acontecendo antes que o mercado perceba. Booker, agente, diretora, label manager, curadora, fundadora. Mais de dez ocupações em duas décadas. Nenhuma delas acidental.
A Curiosidade Como Método

Monique conta que deu uma palestra sobre profissões da música para sessenta jovens de 14 a 24 anos — e que aquela experiência a obrigou a olhar para trás e nomear o que havia construído.
“Sempre fui curiosa e corajosa a aprender e executar com excelência mesmo em processos de aprendizagem”, ela diz. “Então tudo o que fiz foi importante para construir essa bagagem multidisciplinar.”
Essa bagagem começa em 2007, na Carambola Rec, ligada ao Festival Tribe — uma das principais agências de música eletrônica do Brasil na época. Ali ela ocupou a gerência comercial, trabalhou com mais de 30 artistas e atravessou mais de 120 turnês. Foi a porta de entrada e, nas palavras dela, “a certeza de que meu caminho era na música.”
Du Serena, produtor cultural e empresário da música eletrônica que trabalhou ao lado dela nesse período, guarda uma impressão precisa:
“Sempre me impressionou sua habilidade não só em vendas, mas também em enxergar o business como um todo. Ela tem visão estratégica para o desenvolvimento de carreira de artistas e um talento natural para construir e manter relacionamentos com as pessoas.”
De 2011 a 2012, ela co-fundou a Modular Agency, onde a escala cresceu: nove turnês internacionais, com destaque para Snoop Dogg e Pitbull, e a criação do projeto Onda Azul para a Azul Linhas Aéreas — recém-chegada ao Brasil —, que levou música a sete cidades do país. Em 2013, abriu a MD/Agency, sua própria operação de booking, management e curadoria, de onde gerenciou carreiras como as de ANNA, Wehbba e Mariana Mello, e fez curadorias musicais para marcas como Pirelli, Tommy Hilfiger e Jaguar.
Foi também a partir da MD/Agency que ela tomou a decisão que mudaria sua trajetória — e, de alguma forma, parte do mercado brasileiro.

O Boiler Room e um Formato que o Brasil Ainda Não Conhecia
Em 2013, o Boiler Room era um fenômeno global. A WebTV inglesa havia criado um formato de live streaming de música eletrônica que combinava curadoria radical, ausência de palco convencional e transmissão ao vivo para audiências globais — tudo numa estética que parecia o oposto exato do que a indústria costumava produzir. Nenhuma grande empresa brasileira havia tentado trazê-la para cá. Monique tentou. E executou.
Ela desenhou a estratégia de entrada da marca no país, montou do zero a equipe local de transmissão em 4K — um formato que pouquíssimas operações brasileiras dominavam na época —, atuou como diretora e representante legal por três anos e entregou 14 sessões espalhadas pelo Brasil. Sessenta artistas passaram por essas sessões. Os patrocínios incluíram Skol Beats, Red Bull, Ballantine’s e a Rio Music Conference. A audiência global superou dois milhões de pessoas.
Mas o Boiler Room no Brasil não foi apenas uma operação de distribuição de conteúdo internacional. Foi um laboratório. Sob a direção de Monique, a operação produziu um minidocumentário sobre a cena funk paulista — dirigido pela Kondzilla e roteirizado por Vincent Bevins, então correspondente do Los Angeles Times. Era 2014, e a combinação de live streaming em 4K com documentário jornalístico sobre cultura periférica brasileira era algo que simplesmente não existia no mercado nacional.
“Um grande marco aconteceu em 2013, que foi ter trazido e desenvolvido a WebTV inglesa Boiler Room no Brasil”, ela conta. “Na época, ter fechado um dos maiores patrocínios globais, conseguir montar equipe própria de live streaming no país e atuar por três anos como diretora e representante legal.”
Em paralelo a tudo isso, entre 2014 e 2016, ela também atuou como Label Manager na Skol Music — gerenciando três selos com focos distintos: Ganzá, com música eletrônica sob direção de Dudu Marote; BUUUM TRAX, de hip-hop com Zegon; e Stereo Mono, de indie rock com Miranda. Quinze artistas, estratégias individuais de lançamento para cada um. Os nomes da lista dizem tudo sobre o olhar que ela trazia para esse trabalho: Tropkillaz, Filipe Ret, Karol Conká, Jaloo, Mahmundi.

WME: a Plataforma que o Mundo Ainda Não Tinha

O Women’s Music Event nasceu em 2017. Monique estava saindo de um período de licença-maternidade. E foi nesse momento de retorno que ela fundou o que se tornaria, em nove anos, o ecossistema mais organizado de equidade de gênero na indústria musical brasileira — e, segundo ela própria, no mundo.

A afirmação não é modéstia invertida. É dado.
“No mundo não há uma plataforma tão organizada e com tantas ações executadas e organizadas quanto o WME, voltada ao protagonismo feminino”, ela diz. E então lista o que construiu: “Nós temos: conferência, shows, premiações, banco de profissionais, selo de chancela, fazemos curadorias, mudamos line-ups de grandes festivais, fazemos ações que impactam todo o país que é enorme, continental.”

O Selo IGUAL chancela iniciativas que tenham ao menos 50% de mulheres no corpo de trabalhadores — uma ferramenta que transformou uma pauta em critério de contratação. O WME Awards by Billboard é o primeiro prêmio de música do Brasil voltado exclusivamente às mulheres. A WME Conference reúne profissionais de toda a cadeia produtiva. O banco de profissionais cataloga e apresenta ao mercado nomes que existiam, trabalhavam e simplesmente não eram vistos.

“Reconhecemos legados esquecidos, lançamos novos nomes, consolidamos nomes, apresentamos profissionais em toda a cadeia para o mercado, catalogamos e fazemos não somente as mulheres se reconhecerem, mas o mercado reconhecer essas mulheres.”
Ao longo de nove anos, mais de 50 milhões de pessoas foram impactadas pelas ações do WME em seus quatro braços de atuação.
“Ela criou um dos ecossistemas mais relevantes para mulheres e artistas da diversidade no Brasil.”
Lísias Paiva – DeepBeep
Mas a pergunta que Monique faz — e que deveria incomodar qualquer pessoa que trabalha com música no Brasil — é outra: “E se não existisse o WME, como estaria o movimento das mulheres da música no Brasil nesses últimos 10 anos?”
Os Lugares Onde as Decisões São Tomadas
Existe uma diferença entre estar no mercado e estar nos lugares onde o mercado se decide. Monique conhece essa diferença com precisão cirúrgica — e é sobre ela que fala quando o assunto é liderança feminina na indústria musical.
“Quando se chega a cargos mais altos, é interessante enxergar o mercado ainda nas mãos dos mesmos figurões”, ela observa. Não com resignação. Com diagnóstico. “E ser uma mulher bem-sucedida com carreira em ascensão pode incomodar esse lugar de poder e decisão que ainda está protegido[…]. Esses lugares de tomada de decisões e comando das assinaturas dos cheques precisam entrar em equilíbrio de equidade de gêneros.”

E há uma dimensão que ela nomeia com uma palavra precisa — sisterhood — para descrever o que ainda falta entre as mulheres que chegaram lá.
“O sisterhood dos cargos mais altos precisa se fortalecer cada vez mais em comparação ao quanto o brotherhood está estabelecido há tantos anos. Então, furar bolhas dos cargos de liderança ainda é um grande desafio.”
O WME existe, em parte, para encurtar esse caminho. Para que a próxima geração não precise construir do zero o que já foi construído — e para que as mulheres que chegarem ao topo encontrem outras mulheres lá, não apenas homens que já se conhecem há décadas.
O Futuro Já Tem Nome

Monique lançou o Música Que Não Toca Por Aí em 2025 — um clube da música focado em negócios, inteligência de mercado e dados do ecossistema musical. Em três meses, o projeto lançou a primeira temporada de um videocast com sete episódios, promoveu encontros de networking com geração de negócios entre membros e realizou um camping de produção musical que resultou em uma música inédita. É o tipo de projeto que só faz sentido quando quem o cria já não precisa provar que entende o mercado — e pode, finalmente, se dedicar a cartografá-lo.
E a cartografia que ela está fazendo aponta para transformações que muitos ainda tratam como ficção científica.
“O futuro da música está sendo moldado por tecnologias que redefinem a criação, a propriedade e a personalização da experiência auditiva”, ela descreve.
A IA cocriativa que automatiza composições e viabiliza a clonagem de voz legalizada. A hiperpersonalização com álbuns dinâmicos e playlists biométricas que respondem ao humor e aos batimentos cardíacos do ouvinte via smartwatch. Os ecossistemas imersivos que transformam jogos em palcos globais e consolidam o áudio espacial como padrão para realidade aumentada e virtual. A descentralização financeira via contratos inteligentes em blockchain — royalties automáticos, investimento direto de fãs, eliminação de intermediários.
“O mercado fonográfico deixará de ser apenas sobre ‘ouvir’ para se tornar uma experiência interativa e integrada com inteligência artificial e novos ecossistemas virtuais”, ela projeta.
Mas no meio de toda essa arquitetura tecnológica, Monique mantém uma âncora que nenhum algoritmo substituiu até hoje — e que ela entrega como conclusão, não como nostalgia.
“Uma coisa é fato: o ao vivo sempre será revolucionário.”
#MoniqueMoveOMercado
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