Personalização, dados e descoberta de eventos via algoritmo são o futuro da indústria, segundo relatório da PwC
O relatório Global Entertainment & Media Outlook 2026–2030 da PwC projeta que a indústria de entretenimento chegará a US$ 4,2 trilhões em 2030. Para quem produz shows, o dado mais importante não é o tamanho do mercado — é o que está puxando esse crescimento
A PwC publica anualmente o Global Entertainment & Media Outlook, um dos relatórios mais respeitados do setor — 53 territórios, 12 segmentos, cinco anos de projeção. A edição 2026–2030, divulgada em junho deste ano, tem uma conclusão que interessa diretamente a quem trabalha com eventos ao vivo no Brasil: em um mundo cada vez mais digital, a experiência presencial ficou mais valiosa, não menos.
O mercado global de entretenimento e mídia cresceu 5,3% em 2025, atingindo US$ 3,5 trilhões em receita total. A projeção é de mais 4,6% em 2026, com crescimento composto de 3,4% ao ano até 2030 — quando o setor chegará a US$ 4,2 trilhões. São US$ 600 bilhões em novas receitas sendo geradas ao longo dos próximos cinco anos.
Dentro desse universo, o segmento que mais chama atenção pelo ritmo de crescimento é exatamente o de experiências ao vivo e imersivas — shows, festivais, esportes, feiras e eventos presenciais de qualquer natureza.
Por Que o Ao Vivo Está Crescendo num Mundo Digital
A lógica parece paradoxal, mas a PwC a explica com precisão: quanto mais digital e algorítmica se torna a experiência cotidiana, mais as pessoas buscam o que só o presencial pode oferecer.
O relatório cunha o termo shared reality — realidade compartilhada — para descrever experiências que acontecem ao vivo, em tempo real, num espaço físico coletivo. Shows, partidas de futebol, festivais. O que eles têm em comum é o fator que nenhuma plataforma consegue replicar: você estava lá.
E isso, segundo a PwC, tornou-se uma moeda social. Experiências ao vivo funcionam como status e prova de presença que o público — especialmente os mais jovens — transmite pelas redes sociais. Ir ao show não é apenas consumir música. É produzir conteúdo, afirmar identidade cultural e participar de um momento irrepetível.
O Sphere, em Las Vegas, é citado pelo relatório como símbolo desse movimento. O venue imersivo reportou US$ 781 milhões em receita em 2025 — e sua empresa-mãe já planeja expansão para outros mercados nos EUA e para Dubai. Não é coincidência: é a resposta de mercado a uma demanda crescente por experiências que justifiquem sair de casa.
O Que a IA Tem a Ver com Shows ao Vivo
A inteligência artificial é o tema central do relatório — mas não da forma que o produtor de eventos poderia temer.
A PwC é clara: a IA não substitui a experiência humana. Ela a potencializa. O relatório afirma diretamente que, por mais digital e algorítmico que o ambiente se torne, a indústria de entretenimento continuará sendo construída sobre criatividade humana, emoção e conexão entre pessoas. A IA entra como ferramenta de eficiência, personalização e alcance — não como substituta do que acontece no palco.
Para o produtor brasileiro, os impactos práticos mais relevantes apontados pelo estudo são três:
1. Personalização da experiência. Plataformas com grandes bases de dados de usuários conseguem entender preferências, prever comportamentos e recomendar eventos com precisão crescente. Produtoras que investirem em dados de público — quem compra, como compra, o que consome dentro do evento — terão vantagem competitiva real na próxima década.
2. Publicidade mais eficiente e mensurável. O mercado global de publicidade superou US$ 1 trilhão em 2025 pela primeira vez e chegará a US$ 1,4 trilhão em 2030. A IA está tornando campanhas mais direcionadas e com resultados mais mensuráveis. Para quem vende patrocínio, isso significa que as marcas vão exigir métricas mais sofisticadas — e as produtoras que conseguirem entregar dados de audiência detalhados vão fechar contratos maiores.
3. Descoberta de eventos via algoritmo. O relatório aponta que até 2030 o público descobrirá conteúdo cada vez mais por feeds e sistemas de recomendação do que por programação editorial tradicional. Para shows e festivais, isso reforça a importância de presença digital ativa, conteúdo gerado antes e depois do evento, e estratégias de SEO e redes sociais integradas à operação de venda de ingressos.
Publicidade Ultrapassa US$ 1 Trilhão — e o Patrocínio de Eventos é Beneficiado
Um dado do relatório merece atenção especial: o mercado global de publicidade na internet cresceu 12,2% em 2025, chegando a US$ 755,6 bilhões, com projeção de atingir quase US$ 1,1 trilhão até 2030.
As marcas estão gastando mais — e buscando formatos que conectem exposição a resultados mensuráveis. Eventos ao vivo, especialmente com públicos segmentados e engajados, estão bem posicionados nesse cenário. A tendência global aponta para patrocínios mais sofisticados, com ativações integradas, dados de impacto e métricas de retorno — exatamente o modelo que os grandes festivais internacionais já praticam e que o mercado brasileiro ainda está construindo.
O relatório também destaca o crescimento acelerado da publicidade em streaming — Netflix, Amazon Prime Video, Disney+ — como sinal de que as marcas querem estar onde o público está, em múltiplos cantos. Para eventos ao vivo, a lição é que o show não termina quando o público sai do venue: o conteúdo gerado antes, durante e depois do evento é parte do produto que se vende para patrocinadores.
O Que o Produtor Brasileiro Deve Levar Desse Relatório
O relatório da PwC não foi escrito para o Brasil. Mas suas conclusões têm tradução direta para quem opera no mercado nacional.
A demanda por ao vivo é estrutural, não cíclica. Não é efeito pós-pandemia. É uma resposta permanente de mercado ao excesso de digital. O crescimento dos eventos presenciais até 2030 está projetado independentemente de qualquer variação no ambiente econômico.
Experiência imersiva deixou de ser diferencial e virou expectativa. O público que frequenta shows hoje foi moldado pelo Sphere, pelos festivais europeus com produção visual elaborada e pelas experiências de artistas como Beyoncé e Taylor Swift. A régua subiu — e o mercado brasileiro vai sentir isso cada vez mais.
Dados de público são o novo ativo estratégico. As empresas que vão capturar a maior fatia do crescimento até 2030 são as que têm maior capacidade de entender, segmentar e monetizar sua audiência. Isso vale para streaming, para publicidade — e para eventos ao vivo.
Patrocínio vai exigir mais sofisticação. Com marcas cada vez mais orientadas a dados e resultados, o modelo de “logo no backdrop” perde força. Produtoras que desenvolverem propostas de patrocínio baseadas em dados de público, métricas de engajamento e ativações mensuráveis vão sair na frente.
O relatório da PwC é, no fundo, uma boa notícia para quem produz entretenimento ao vivo. O mundo está ficando mais digital — e isso está tornando o presencial mais valioso, não menos. A questão, como sempre, é quem vai estar preparado para capturar esse valor quando ele chegar.