Conheça as 3 forças principais que vão movimentar U$ 2,5 trilhões até 2035 no mercado de eventos
O maior estudo já feito sobre a indústria de eventos projeta crescimento de 6,8% ao ano por mais de uma década. Os dados da Allied Market Research revelam onde estão as oportunidades — e onde estão as armadilhas
Em 2021, a indústria global de eventos movimentou US$ 736,8 bilhões. Em 2035, esse número deve ultrapassar US$ 2,5 trilhões. A taxa de crescimento anual composta — o famoso CAGR — está projetada em 6,8% ao ano por mais de uma década.
Esses números são do relatório Events Industry Market (2021–2035), publicado pela Allied Market Research em dezembro de 2024, um dos estudos setoriais mais abrangentes já produzidos sobre a indústria de eventos no mundo. Com 562 páginas, 254 tabelas e 87 gráficos, ele não é leitura para todo mundo. Mas as conclusões que importam para quem produz, planeja e investe no setor podem ser lidas aqui.
O Que Está Puxando esse Crescimento
Três forças principais estão acelerando o mercado globalmente — e as três têm implicações diretas para o Brasil.
Transformação digital na produção de eventos. Plataformas virtuais, inteligência artificial e análise de dados em tempo real estão mudando como eventos são planejados, executados e medidos. Live streaming e eventos híbridos expandiram o alcance geográfico de experiências que antes eram exclusivamente locais. Realidade aumentada e realidade virtual começam a aparecer como ferramentas de engajamento — não como curiosidade, mas como infraestrutura.
Crescimento dos eventos corporativos. Conferências, feiras e eventos de marca tornaram-se pilares das estratégias de marketing das empresas. A digitalização das relações de negócio, paradoxalmente, elevou o valor do encontro presencial. Quanto mais as interações migram para o digital, mais as empresas investem em experiências físicas memoráveis.
Patrocínio como motor financeiro. O estudo é categórico: a principal fonte de receita da indústria em 2023 foi patrocínio, não venda de ingressos. Isso desloca a lógica financeira do setor — e coloca o relacionamento com marcas no centro da estratégia de qualquer produtor que queira crescer de forma sustentável.

Quem Domina o Mercado — e o Que Isso Ensina
1. Por tipo de evento
O segmento que mais domina o mercado global não é música ao vivo. São eventos corporativos e seminários — convenções, congressos, feiras de negócios, lançamentos de produto, retiros corporativos. Esse dado não é uma ameaça ao mercado de shows; é uma oportunidade de posicionamento. Produtoras com capacidade de atender tanto o mercado de entretenimento quanto o corporativo têm uma vantagem estrutural significativa em termos de diversificação de receita.

Dentro do recorte de entretenimento — que inclui festivais de música e shows — o segmento é classificado pelo estudo como o segundo em crescimento projetado, impulsionado pelo retorno pós-pandemia e pela demanda crescente por experiências ao vivo únicas e imersivas.
2. Por fonte de receita
O ranking das fontes de receita revela onde o dinheiro realmente está:
- Patrocínio — líder absoluto
- Venda de ingressos
- Alimentação e bebidas
- Publicidade
- Merchandise
- Licenciamento de mídia

Para o produtor brasileiro, esse ranking é uma provocação direta. A maioria das operações locais ainda trata o ingresso como principal fonte de receita e o patrocínio como complemento. O mercado global está dizendo o contrário.
3. Por faixa etária do público
O grupo entre 21 e 40 anos domina a participação em eventos globalmente — e é projetado para manter essa dominância até 2035. Esse é o público que frequenta shows, festivais, conferências e feiras. É também o público que mais usa redes sociais para descobrir eventos, comprar ingressos e compartilhar experiências.

Para estratégias de marketing e growth, esse dado valida o investimento em canais digitais como principal ponto de contato com o consumidor — sem abandonar a experiência presencial como produto central.
Por localização

Cidades Tier 1 concentram a maior fatia do mercado em 2023 — e a lógica é clara: infraestrutura de transporte, hotéis, venues de grande capacidade e concentração de público com renda para consumir experiências. Mas o estudo também aponta crescimento relevante em Tier 2 e Tier 3, especialmente em mercados emergentes onde a expansão da classe média e da conectividade digital está criando novos polos de consumo de eventos.

No contexto brasileiro, essa é a validação técnica do que Porto Alegre, Recife, Salvador e outras capitais fora do eixo Rio-SP já estão sinalizando na prática: existe demanda, existe público, e existe oportunidade — para quem tiver disposição e estrutura para operar fora do centro.
A Posição do Brasil no Mapa Global
O relatório segmenta o mercado em quatro grandes regiões. O Brasil aparece dentro do bloco LAMEA — Latin America, Middle East & Africa — ao lado de Argentina, Arábia Saudita, Emirados Árabes e África do Sul.
Europa liderou o mercado em 2023, puxada por Alemanha e Espanha. Ásia-Pacífico é a região com maior crescimento projetado, impulsionada por China, Índia e Coreia do Sul — onde o interesse de jovens em eventos ao vivo, shows e conferências cresce de forma acelerada.
Para o Brasil, o dado mais relevante é o que o estudo não precisa explicitar: somos o maior mercado de entretenimento da América Latina, o segundo maior de música ao vivo do mundo em alguns recortes, e ainda operamos com infraestrutura, penetração de patrocínio e sofisticação de dados abaixo do nosso potencial real.
A distância entre onde o Brasil está e onde poderia estar não é um problema — é o tamanho da oportunidade.
O Que o Produtor Brasileiro Deve Fazer com Esses Dados
O estudo não foi escrito para o mercado brasileiro. Mas suas conclusões têm aplicação direta em qualquer decisão estratégica do setor local.
Diversifique as fontes de receita agora. Se o seu negócio depende majoritariamente de bilheteria, você está estruturado como o mercado de dez anos atrás. Patrocínio, licenciamento, food & beverage e mídia são as fontes que sustentam os maiores players globais. Construir relacionamentos com marcas não é tarefa do departamento comercial — é decisão estratégica da liderança.
Invista em dados de público. O estudo destaca análise de dados em tempo real como uma das principais alavancas de crescimento. Saber quem é seu público, como ele compra, o que consome dentro do evento e como avalia a experiência é o que separa produtoras amadoras de empresas escaláveis.
Pense em eventos corporativos como segunda vertical. O maior segmento do mercado global é frequentemente ignorado pelas produtoras focadas em entretenimento. Uma operação que consegue atender tanto o mercado de shows quanto o corporativo tem mais resiliência, fluxo de caixa mais previsível e maior capacidade de absorver anos difíceis.
Explore cidades fora do eixo com estratégia — não com improvisação. O crescimento projetado em Tier 2 e Tier 3 é real, mas exige planejamento. Infraestrutura local, fornecedores regionais, patrocínio de marcas com presença fora dos grandes centros — tudo isso precisa ser mapeado antes, não descoberto durante a produção.
Tecnologia não é diferencial — é pré-requisito. O estudo deixa claro que AR, VR, plataformas híbridas e ferramentas de gestão digital deixaram de ser experimentação e passaram a ser infraestrutura básica. Quem não estiver adotando essas ferramentas até o fim da década estará operando com desvantagem estrutural.
Conclusão: o Mercado Está Crescendo. A Questão é Quem Vai Capturar Esse Crescimento
US$ 2,5 trilhões em 2035 não são uma promessa abstrata. São o resultado de uma demanda global crescente por experiências ao vivo, presenciais e memoráveis — num mundo onde o digital está em todo lugar e exatamente por isso o presencial se tornou mais valioso, não menos.
O Brasil está bem posicionado geograficamente, culturalmente e demograficamente para capturar uma fatia relevante desse crescimento. Mas isso exige que os profissionais do setor parem de operar apenas no curto prazo e comecem a tomar decisões com o horizonte de 2035 na cabeça.
Os dados estão disponíveis. A pergunta agora é quem vai usá-los.