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Brasil é o 2º maior mercado de shows do mundo — quais os problemas que esse dado carrega?

O Brasil conquistou um título histórico. Mas título de mercado não é sinônimo de mercado distribuído, sustentável ou preparado estruturalmente para sustentar esse volume nos próximos anos

O Brasil é hoje o segundo maior mercado de shows ao vivo do planeta, atrás apenas dos Estados Unidos. O dado é da PwC/Live Entertainment, parte do relatório Global Entertainment & Media Outlook.

Mas o que realmente importa para quem trabalha no setor: o que esse título muda na prática para quem produz shows no Brasil?

A resposta não é simples — e tem tanto oportunidade quanto risco.

O tamanho real do bolo

Os números de contexto já são conhecidos do setor, mas vale reunir: a indústria de eventos movimenta mais de R$ 300 bilhões por ano no Brasil, equivalente a 4,3% do PIB nacional, segundo Abeoc e Sebrae. O Ecad registrou 16% de crescimento na arrecadação de direitos autorais em shows no primeiro semestre de 2025, somando R$ 195 milhões — impulsionado por 9.769 apresentações pagantes só entre janeiro e julho.

2026 já se desenha como um dos anos mais movimentados da história recente, puxado pela combinação entre grandes festivais e a consolidação do Brasil como rota estratégica de turnês internacionais — com Lollapalooza e Rock in Rio funcionando como catalisadores de “ondas secundárias” de shows, quando artistas já no país anunciam datas extras em outras praças.

O AC/DC que fez shows no MorumBIS em fevereiro e março de 2026 é só mais um capítulo dessa agenda que não para de crescer.

O ponto que ninguém está discutindo: ser o 2º não significa estar preparado para ser o 2º

Primeiro problema: concentração de risco em poucos polos. O título de segundo maior mercado do mundo é nacional — mas a infraestrutura que sustenta esse título está concentrada. MorumBIS, Nubank Parque, Nilton Santos. A maior parte dos grandes nomes internacionais passam pelos mesmos três ou quatro estádios. Isso significa que o crescimento do mercado está mais ligado à capacidade desses venues específicos do que a uma expansão real e distribuída da infraestrutura brasileira.

Para o produtor de médio porte fora do eixo Rio-SP, o título de “2º maior mercado do mundo” é quase irrelevante se a cidade dele não tem venue, não tem ticketing robusto e não tem capilaridade de transporte para receber um show de porte médio.

Segundo problema: o título mede volume, não distribuição de receita. Ser o segundo maior mercado em ingressos vendidos diz muito pouco sobre quanto dessa receita fica com produtores brasileiros versus quanto vai para agências internacionais de booking, promotoras estrangeiras e cachês em dólar. O Brasil pode estar vendendo mais ingressos e ainda assim capturando proporcionalmente menos valor do que mercados menores com cadeia de produção mais nacionalizada.

Terceiro problema: o boom de 2026 é também um teste de estresse. Com Lollapalooza, Rock in Rio, Bad Bunny e múltiplas turnês internacionais convergindo no mesmo ano, a pergunta que o produtor brasileiro precisa se fazer não é “o mercado está crescendo?” — é “a cadeia de fornecedores, equipes técnicas, equipamentos e mão de obra especializada do Brasil aguenta esse volume sem gargalo?”

Quando o emprego formal no setor já cresceu 74,6% desde 2019, segundo dados da ABRAPE, isso é sinal de expansão — mas também de um mercado correndo para formar gente mais rápido do que historicamente conseguia.

O que isso significa, na prática, para quem produz

Para o produtor de grande porte que já trabalha com os grandes venues, o cenário é de oportunidade real, mas com competição internacional cada vez maior por essas mesmas datas e públicos.

Para o produtor regional e de médio porte, o título não muda nada automaticamente. A pergunta certa não é “o Brasil é o 2º maior mercado”, mas “minha cidade, meu venue, minha operação têm capacidade de capturar uma fração desse crescimento, ou esse crescimento vai continuar concentrado nos mesmos polos de sempre?”

Para quem fornece serviços ao setor — equipe técnica, segurança, logística, hospedagem — o momento é de profissionalização acelerada. O volume está vindo. A pergunta é se a capacidade técnica instalada vai acompanhar.

A pergunta que fica no ar

O Brasil conquistou um título histórico. Mas título de mercado não é sinônimo de mercado distribuído, sustentável ou preparado estruturalmente para sustentar esse volume nos próximos anos.

A conversa que o setor precisa ter agora não é sobre comemorar a posição — é sobre o que fazer com ela antes que o gargalo de infraestrutura e mão de obra vire o fator limitante do próprio crescimento que esse título representa.