Caroline Eudézio: como ela transformou um olhar artístico em liderança nos maiores eventos do Brasil
De um concurso no Coachella à liderança de projetos como Nosso Camarote, Rock in Rio e MotoGP, ela constrói uma trajetória marcada pela criatividade, pela representatividade feminina e por um novo olhar sobre a experiência do público
Em 2015, Caroline Eudézio foi pela primeira vez ao Tomorrowland Brasil. Era também seu primeiro festival. Durante três dias, a decoração, os ambientes e a atmosfera do evento despertaram algo que ela ainda não sabia transformar em profissão. Em meio à experiência, uma pergunta surgiu: quem pensa em tudo aquilo?
Na época, ela não foi atrás da resposta. Mas a pergunta permaneceu, até que, alguns anos depois, encontrasse um caminho dentro do show business.
Formada em Arquitetura pela Universidade Federal Fluminense (UFF), em 2018, Caroline imaginava que sua carreira seguiria pela arquitetura de interiores e pela decoração, áreas em que enxergava maior liberdade criativa. A cenografia de eventos, entretanto, ainda era pouco explorada em sua formação acadêmica.
A mudança começou no final de 2019, durante seu segundo Rock in Rio. Trabalhando com a paisagista Simone Grangeiro na área VIP, Caroline conheceu de perto as arquitetas e os profissionais responsáveis pela criação dos espaços do festival.

“Minha ficha caiu, eu poderia fazer parte desse mundo, eu finalmente poderia ser muito mais criativa e trazer o lúdico para meus trabalhos, meus olhos brilharam!”, relembra.
A partir dali, começou a buscar informações sobre a profissão e a direcionar sua carreira para o universo dos grandes eventos. Em 2020, inscreveu-se em um concurso de arte do Coachella, nos Estados Unidos. Foi selecionada em sua primeira experiência com pintura, um reconhecimento que ampliou suas perspectivas criativas. A pandemia, porém, impediu que levasse sua obra a Los Angeles.
O período não interrompeu seus planos. Caroline continuou investindo na arte e procurou profissionais do setor pelas redes sociais, até receber, em 2021, um convite para uma entrevista de emprego na área de cenografia. Mesmo sem experiência prévia no mercado de eventos, encontrou uma oportunidade de transformar seu repertório artístico em trabalho. Seu primeiro projeto foi como diretora criativa do Nosso Camarote, na Marquês de Sapucaí, função que exerceu por três anos consecutivos.

Cinco anos depois de ingressar profissionalmente no setor, sua trajetória inclui passagens por Rock in Rio, The Town, Lollapalooza Brasil, Rio Open e Festival Vale — Orquestra Ouro Preto, entre outros projetos. Neste último, foi a única arquiteta envolvida no desenvolvimento do projeto, do masterplan à cenografia. Atualmente, atua como gerente de Experiência Visual e Layout no MotoGP, coordenando aspectos que vão da cenografia à comunicação visual.

Sua história mostra como o encontro entre formação técnica, repertório artístico e oportunidades pode abrir caminhos profissionais em uma indústria na qual a cenografia e a experiência visual são partes fundamentais do espetáculo.
Da criatividade à liderança em um mercado masculino
Transformar um olhar criativo em carreira foi apenas uma etapa. Conquistar autoridade para liderar projetos de grande porte trouxe outros desafios. Caroline começou a trabalhar no setor ainda muito jovem e percebeu que sua idade e sua aparência influenciavam a maneira como era recebida profissionalmente.
“No início, não foi fácil. Com vinte e poucos anos, uma aparência mais jovem do que a minha idade e uma voz suave, tive dificuldade em transmitir autoridade”, conta.
Com o tempo, a experiência, a postura profissional e a relação construída com os parceiros de trabalho ajudaram a consolidar seu espaço. A trajetória também lhe permitiu acompanhar uma mudança importante na composição das lideranças do entretenimento.
“Hoje, fico feliz em ver que nós, mulheres, estamos conquistando cada vez mais cargos de liderança no mercado.”
Em seus trabalhos mais recentes, Caroline teve a oportunidade de atuar ao lado de diretoras, CEOs e gerentes, experiências que contribuíram para sua formação profissional e para a maneira como enxerga o próprio papel como líder.
“Aprendi com cada uma delas e carrego comigo os ensinamentos de todas as mulheres que tive a oportunidade de conhecer, admirar e acompanhar de perto em suas trajetórias profissionais.”
A representatividade, nesse contexto, não se limita à presença feminina em cargos de decisão. Ela também está na possibilidade de acompanhar outras mulheres conduzindo equipes, tomando decisões e construindo projetos em uma indústria que, historicamente, foi associada à liderança masculina.

Para Caroline, essas referências ajudam a ampliar as perspectivas de quem está começando e mostram que existem diferentes maneiras de construir autoridade e desenvolver uma carreira no setor.
A experiência do público vai além da cenografia
A criação de ambientes memoráveis exige mais do que uma solução visual impactante. Para Caroline, compreender as transformações no comportamento do público é fundamental para pensar os próximos passos do live marketing.
Nos últimos anos, a relação das pessoas com o ambiente digital mudou a maneira como elas vivenciam os eventos presenciais. Em um cotidiano marcado pela conexão constante, sair de casa passou a representar também uma oportunidade de encontrar pessoas, estabelecer vínculos e viver experiências que não se reproduzem da mesma forma nas telas.
“Hoje, o público é cronicamente online e, quando sai de casa, busca algo que o ambiente digital não consegue proporcionar da mesma forma: encontrar pessoas, criar conexões e viver experiências reais”, afirma.
Essa mudança também exige uma revisão da maneira como as marcas planejam suas ativações. Na avaliação de Caroline, o foco precisa ir além da distribuição de brindes, que nem sempre são úteis e podem gerar filas extensas sem necessariamente deixar uma lembrança positiva. A oportunidade está em compreender o funcionamento do evento, identificar pontos de atrito na jornada do público e transformá-los em experiências relevantes.
“O caminho é identificar os gaps do evento e transformá-los em oportunidades de experiência, criando uma cenografia com propósito, capaz de gerar valor tanto para a marca quanto para quem a vivencia.”
A proposta é pensar a cenografia como parte de uma estratégia mais ampla, conectada às necessidades do público e aos objetivos de cada projeto. Um espaço visualmente atraente pode chamar a atenção, mas é a relação que ele estabelece com as pessoas que determina a qualidade da experiência.
Nesse processo, Caroline também destaca a importância de observar o comportamento dos participantes e ouvir o que eles têm a dizer.
“As redes sociais são grandes termômetros de satisfação e fontes valiosas de insights para compreender comportamentos, identificar oportunidades e desenvolver experiências cada vez mais relevantes.”
O desafio, portanto, não está apenas em criar ambientes que impressionem, mas em desenvolver soluções que façam sentido para quem participa do evento — e que construam uma associação positiva com as marcas envolvidas.
Inteligência artificial e o futuro dos grandes eventos
Se a experiência presencial se torna cada vez mais relevante, a tecnologia também amplia as possibilidades de construí-la.
Para Caroline, a inteligência artificial será uma habilidade indispensável para os profissionais que desejam acompanhar a evolução do setor. Mais do que uma ferramenta de produtividade, ela pode contribuir para ampliar o repertório criativo e explorar novas formas de interação.
“A IA é uma realidade e está aí para nos ajudar a criar espaços cada vez mais criativos e inovadores”, afirma.
A transformação também passa por experiências imersivas, realidade aumentada e novas possibilidades de interação entre marcas, ambientes e pessoas. Em festivais e grandes eventos, essas ferramentas podem expandir a maneira como o público percorre os espaços, participa das ativações e se relaciona com o conteúdo apresentado.

Para quem trabalha com cenografia e direção criativa, o desafio será incorporar essas possibilidades sem perder de vista o propósito de cada projeto. A tecnologia precisa contribuir para a experiência, e não existir apenas como um recurso de impacto visual.
A trajetória de Caroline Eudézio conecta justamente esses diferentes elementos: arquitetura, arte, tecnologia e comportamento. De uma experiência marcante em seu primeiro festival à atuação em grandes projetos do entretenimento, sua carreira foi construída pela busca de novas possibilidades criativas e pela capacidade de transformar referências em soluções concretas.
Em uma indústria que disputa cada vez mais a atenção do público, o próximo passo pode estar menos em criar ambientes grandiosos por si só e mais em compreender o que faz uma experiência permanecer na memória.
É nessa combinação entre criatividade, intenção e conexão humana que Caroline encontra o espaço para continuar construindo sua trajetória — e contribuindo para os caminhos de uma indústria em transformação.
#CarolineMoveOMercado
