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Mari Pitta: entre a luz, a técnica e a construção de experiências que movem o show business

Arquiteta, lighting designer, cenógrafa e diretora técnica e criativa, Mari Pitta construiu uma trajetória que atravessa grandes festivais, turnês, Carnaval e projetos de escala internacional

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Há diferentes maneiras de enxergar um grande espetáculo. Para o público, ele pode ser uma sucessão de imagens, luzes, música e momentos que parecem acontecer naturalmente. Nos bastidores, porém, cada segundo depende de decisões técnicas, criativas e operacionais que precisam funcionar em conjunto.

É nesse espaço entre a criação e a execução que está a trajetória de Mari Pitta.

Arquiteta, lighting designer e cenógrafa, Mari está à frente da LABe – Laboratório de Entretenimento, onde desenvolve projetos de iluminação, cenografia e direção criativa e técnica para grandes produções do entretenimento. Sua carreira passa por alguns dos principais palcos do país, incluindo Rock in Rio, The Town e grandes turnês nacionais, além da nova operação de iluminação da Marquês de Sapucaí, projetada e comandada por ela e seu sócio, Césio Lima.

No currículo, estão trabalhos com artistas como Iza, Ludmilla e Matuê, além de projetos como as turnês de Caetano e Bethânia, Djavan e Simone.

Foto: Acervo pessoal

Mas talvez o aspecto mais interessante de sua trajetória esteja justamente na capacidade de transitar entre universos que, apesar de pertencerem ao mesmo mercado, exigem linguagens completamente diferentes.

De festivais à Sapucaí: diferentes palcos, diferentes desafios

Uma grade de festival, uma turnê de um único artista e o desfile de uma escola de samba podem parecer universos próximos, mas exigem estratégias completamente diferentes.

Para Mari, o primeiro desafio é justamente fazer essa mudança de chave.

“Cada projeto exige pausa e clareza para não ser atropelado pelas demandas: entender o que aquele trabalho precisa, o que pretende transmitir, por onde começar e qual é o seu elemento central.”

Essa necessidade de imersão faz com que grandes projetos não possam simplesmente ser tratados como mais uma entrega dentro da agenda.

“Cada um desses formatos exige um mergulho completo.”

Na prática, isso significa equipes dedicadas integralmente a uma produção, desde a pesquisa e o desenvolvimento conceitual até desenho, aprovações, ensaios, produção virtual, produção executiva e logística.

No caso dos festivais, existe ainda uma camada adicional de complexidade. Diferentes artistas precisam compartilhar o mesmo palco, dentro de uma operação com tempo limitado, regras rígidas e diversas restrições técnicas.

“Essas e outras limitações impostas pelos festivais criam muitas barreiras ao trabalho e o transformam em uma espécie de ‘gincana’.”

O resultado depende da capacidade de conectar todas as pontas: artista, direção criativa, projeto técnico e a própria operação do festival.

Foto: Acervo pessoal

Na Sapucaí, a lógica muda novamente.

Todas as escolas partem do mesmo espaço: um palco linear, extenso e compartilhado. Mas cada agremiação precisa transformá-lo em uma experiência própria, preservando sua identidade e sua narrativa.

Foi nesse contexto que Mari encontrou um dos grandes desafios de seu trabalho: mostrar que a luz não é apenas um elemento de embelezamento, mas parte da dramaturgia.

“O grande desafio ali foi demonstrar aos carnavalescos que a luz, e por vezes a sua ausência, pode integrar a narrativa artística do desfile.”

Foto: Acervo pessoal

Nas turnês, por outro lado, existe uma possibilidade maior de mergulho na obra de um único artista. É possível acompanhar ensaios, estudar cada música e desenvolver a programação visual e luminosa em detalhes. Mas surge outro desafio: transportar aquela experiência para diferentes cidades, palcos menores e estruturas com recursos distintos. É justamente essa circulação entre formatos que, para Mari, acaba enriquecendo sua própria linguagem.

“O que mais me empolga é que essas diferenças me complementam tecnicamente e ampliam o meu olhar.”

A experiência de trabalhar em diferentes escalas também muda a forma como ela enxerga o público. Em um estádio, a luz precisa funcionar para quem está distante e para quem está diante do palco, dentro de uma experiência que combina iluminação, som, imagem e atmosfera. No teatro, a relação é muito mais próxima e intimista.

“Cada experiência alimenta a outra.”

No centro de tudo está a arquitetura.

“A arquitetura é o que conecta tudo isso. Não consigo criar sem levar em conta o espaço, o público, a estrutura disponível e as demais condicionantes do projeto.”

É uma forma de criação que, segundo Mari, transita entre campos que normalmente são tratados separadamente: engenharia, artes visuais, técnica e sensibilidade.

Quando a técnica também é ferramenta de liderança

O crescimento de Mari acontece em uma indústria que ainda carrega uma forte predominância masculina, especialmente nas áreas técnicas e de operação.

Para ela, esse cenário não é uma questão do passado.

“Esse desafio é real e atual. O entretenimento ainda é percebido como um ambiente predominantemente masculino.”

A associação entre montagem, execução e força física ainda contribui para essa percepção. Mas, na experiência de Mari, foi justamente o domínio técnico que abriu espaço para que ela pudesse conquistar reconhecimento.

Foto: Acervo pessoal

“O que funcionou para mim, e continua funcionando, é o caminho técnico e exato, aliado, claro, ao cuidado e à percepção.”

Ao longo da trajetória, ela também encontrou pessoas que ajudaram a criar oportunidades. Entre elas, Jorginho de Carvalho e Césio Lima, seu sócio até hoje. Mas a oportunidade, sozinha, não bastava.

“Foi a formação técnica que abriu caminho para o reconhecimento.”

Esse ponto ajuda a explicar também uma das preocupações que deram origem à LABe. Mari enxerga o entretenimento como um setor que ainda possui pouca formação específica, pouca sistematização e poucas oportunidades de certificação. E isso representa, ao mesmo tempo, um problema e uma oportunidade.

“O entretenimento ainda é uma área pouco estudada e pouco sistematizada, com raras oportunidades de formação específica.”

Sua formação em arquitetura acabou funcionando como uma vantagem em diferentes momentos da carreira. E, diante de situações de desdém que muitas mulheres conhecem, a resposta veio pela consistência do trabalho.

“Cada vez que eu demonstrava a consistência dos meus projetos e das minhas definições, inclusive nos embates necessários para realizá-los da forma que eu acreditava, eu conquistava mais espaço.”

Foto: Acervo pessoal

Para as mulheres que estão entrando no mercado, sua recomendação é direta: estudar, se qualificar e ocupar o espaço técnico. Mas ela também aponta uma transformação que precisa acontecer coletivamente.

“O mercado precisa deixar de ser pautado por indicações, grupos fechados e predominância masculina para se consolidar como um segmento profissional, tecnicamente embasado.”

Para Mari, profissionalizar o setor também significa discutir direitos trabalhistas, jornadas adequadas, qualificação e estrutura. É uma mudança que pode abrir espaço para mais mulheres chegarem às posições de liderança. E, para quem já chegou lá, existe uma responsabilidade adicional:

“Para quem já alcançou essas posições, fica a responsabilidade de abrir portas: contratar, indicar, formar e dar visibilidade a outras mulheres.”

Tecnologia sem perder a magia

A inteligência artificial já começou a alterar a maneira como profissionais criativos desenvolvem projetos. Na visão de Mari, a tecnologia já é uma ferramenta importante dentro dos escritórios, especialmente na concepção, pré-visualização e comunicação com clientes.

Foto: Acervo pessoal

No entretenimento, entretanto, sua utilização ainda está em um estágio inicial. E existe uma preocupação central: tecnologia não pode substituir a experiência humana.

“Enxergo o futuro da direção técnica e criativa na capacidade de construir experiências reais apoiadas na tecnologia, sem que ela se sobreponha à magia e ao encanto.”

Para ela, um espetáculo possui uma característica que o diferencia de outros produtos.

“Um espetáculo não é um produto industrial: é uma expressão humana, construída coletivamente, com conceito, sensibilidade e envolvimento.”

Esse elemento humano pode se tornar ainda mais importante justamente porque o público está cada vez mais imerso em experiências digitais. A quantidade de estímulos aumenta, a disputa pela atenção se intensifica e, nesse cenário, o encontro presencial ganha outro valor.

“Justamente por ser cada vez mais rara, a experiência ao vivo, a do encontro e da celebração compartilhada, tende a se tornar ainda mais valiosa.”

Para Mari, preservar essa experiência é preservar aquilo que existe de mais importante no entretenimento.

O Brasil precisa aprender a projetar antes de executar

Se existe um ponto em que Mari acredita que o Brasil precisa avançar para competir com grandes produções internacionais, ele não está necessariamente na criatividade. Está no planejamento.

“Para alcançar o nível das produções internacionais de referência, o Brasil precisa, antes de tudo, reconhecer a relevância do entretenimento, o que o torna mais atrativo para investimento, pesquisa e tecnologia.”

Mas existe uma palavra que aparece com ainda mais força em sua análise: pré-produção. Mari usa a construção civil para explicar o problema. Na arquitetura, é possível passar meses projetando um edifício antes de iniciar uma obra que levará anos para ser construída. O tempo investido no planejamento reduz erros, aumenta a precisão e melhora a eficiência da execução. No entretenimento, muitas vezes acontece o contrário.

“O entretenimento brasileiro repete essa lógica e subestima a pré-produção.”

O reflexo aparece especialmente nas turnês. Segundo Mari, ainda é comum que espetáculos estreiem diretamente em grandes arenas sem passar por um período adequado de ensaios completos.

Em mercados internacionais, a cultura das residências artísticas permite que uma produção seja testada, amadurecida e corrigida antes de começar a circular.

Para ela, essa etapa deveria ser entendida como parte essencial da criação — e não como um luxo.

“A pré-produção é como a fundação de um edifício: não aparece, mas é o que sustenta a obra.”

Mais tempo de preparação significa mais espaço para testar soluções, identificar problemas e fazer com que todas as áreas trabalhem em torno do mesmo objetivo. E, no fim, o objetivo continua sendo o mesmo: a música.

“Quando a música, que é o verdadeiro produto, chegar a todos os profissionais com tempo para testar e aprimorar suas soluções, poderemos unir a criatividade brasileira à excelência que vemos no exterior.”

É nesse encontro entre criatividade e método que Mari Pitta enxerga o próximo capítulo do show business.

Uma indústria capaz de preservar a emoção do espetáculo, incorporar novas tecnologias e, ao mesmo tempo, compreender que grandes experiências não começam quando as portas se abrem. Elas começam muito antes.

#MariMoveOMercado

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