Classic Hall: Um legado que colocou o Nordeste na rota das grandes turnês
Inaugurado em 2001 com um show esgotado de Roberto Carlos, espaço em Olinda construiu sua trajetória entre grandes apresentações internacionais, parcerias comerciais e uma estratégia regional para viabilizar turnês
Quando o Classic Hall abriu as portas, em 2001, a ambição era grande: tornar-se uma das principais casas de shows indoor do Brasil e ampliar o espaço de Pernambuco no circuito de grandes turnês. A inauguração, com ingressos esgotados para um show de Roberto Carlos, marcou o início de uma trajetória construída sobre uma combinação de infraestrutura, relacionamento com artistas e visão de negócio.
Por trás do projeto estava Luiz Augusto, sócio majoritário da casa, que já acumulava duas décadas de experiência no mercado de entretenimento. A proposta arquitetônica, desenvolvida por Augusto Reinaldo após visitar importantes casas de shows do país, priorizou a experiência do público: formato de anfiteatro, pista em níveis para melhorar a visibilidade e tratamento acústico, um dos diferenciais que a casa mantém até hoje.
“Meu pai é um empreendedor nato: sonha grande, tem coragem de arriscar e acredita firmemente nos seus objetivos”, conta Luisa Nóbrega, diretora de marketing do Classic Hall.

Parcerias e grandes shows consolidam a trajetória
Nos anos seguintes, o Classic Hall avançou para além da estrutura física. Uma das decisões importantes foi a parceria de naming rights com a Chevrolet, cujo primeiro contrato durou cinco anos e foi renovado por mais cinco. Segundo Luisa, o acordo deu mais segurança para investir em atrações de maior risco financeiro e manter melhorias constantes na estrutura.
O encerramento da parceria, motivado por uma decisão de corte de gastos da matriz da General Motors nos Estados Unidos, também deixou uma lição sobre o papel do patrocínio na indústria do entretenimento: marcas podem ajudar a viabilizar investimentos que seriam mais difíceis de sustentar apenas com a operação da casa.
Na programação, alguns espetáculos se tornaram marcos. A gravação do DVD do Scorpions, em 2008, o show de Elton John, em 2013, e a apresentação do Guns N’ Roses, em 2014, contribuíram para consolidar o espaço como destino de grandes turnês. Ao longo de sua história, o Classic Hall já recebeu mais de 60 shows internacionais, como: Aerosmith, Maroon 5, Backstreet Boys, A-ha e Evanescence.

A estratégia regional por trás das turnês
Operar uma grande casa de shows fora do eixo Rio–São Paulo exige mais do que atrair público. Logística, deslocamento de equipamentos e equipes e custos de produção pesam nas negociações com artistas e empresários.
A estratégia do Classic Hall passa por tratar o Nordeste como um circuito integrado. Recife está entre Salvador e Fortaleza e tem conexão com mercados como João Pessoa, Maceió, Natal e Campina Grande. A lógica é organizar rotas que tornem a passagem das turnês pela região mais eficiente.
“Uma parte importante do nosso trabalho é construir rotas que façam sentido para as turnês. Ao fechar uma apresentação no Recife em uma sexta-feira, por exemplo, buscamos viabilizar outra data em uma cidade da região no sábado. Isso ajuda a distribuir os custos de deslocamento e a tornar a passagem pelo Nordeste mais atrativa”, explica Luisa.
A operação também conta com o Spazzio, em Campina Grande, e uma rede de parceiros e produtores locais no Nordeste e no Norte. Essa atuação regional amplia as possibilidades de negociação e pode viabilizar projetos que seriam mais difíceis com apenas uma apresentação.
O resultado aparece em turnês que, em algumas ocasiões, escolheram o Classic Hall como única parada no Norte e Nordeste. Entre os exemplos citados por Luisa estão as apresentações de Caetano Veloso e Maria Bethânia e de Gilberto Gil, que passaram por outras cidades em estádios, mas encontraram na casa pernambucana uma alternativa indoor. No Classic Hall, houve sessões esgotadas em dias consecutivos.

Pós-pandemia: renovar o público sem perder a essência
A pandemia trouxe um desafio duplo: preservar a operação durante o período de paralisação e retomar as atividades em um cenário de custos mais altos. Passagens, mão de obra, cachês e equipamentos ficaram mais caros, enquanto as despesas fixas de uma casa desse porte continuaram elevadas.
Luisa destaca uma decisão daquele período como parte importante da cultura da empresa:
“Durante os dois anos em que ficamos parados, não demitimos nenhum funcionário. Preservar nossa equipe foi uma decisão importante e diz muito sobre a cultura da empresa.”
Na retomada, a renovação da audiência passou a ocupar um lugar central na estratégia de marketing e programação. A casa ampliou a curadoria para incluir gêneros como trap e música eletrônica, retomou eventos de reggae e desenvolveu festivais próprios, buscando públicos que nem sempre se identificavam com a programação tradicional. A proposta é diversificar sem perder de vista a experiência do cliente.
“Uma pergunta orienta esse trabalho: qual público está carente de eventos com boas atrações e uma entrega de qualidade?”, diz Luisa.
A estratégia inclui atender diferentes comunidades e cenas, de eventos religiosos ao público LGBTQIA+ e à música alternativa.

O próximo capítulo do Classic Hall
A renovação também passa pela infraestrutura. A casa modernizou o sistema de climatização, construiu novos conjuntos de banheiros e investe em painéis de LED nas áreas interna e externa. Embora tenha capacidade para até 15 mil pessoas, trabalha com público de até 12 mil para priorizar o conforto.
Outro diferencial é a flexibilidade: paredes modulares permitem adaptar o espaço para eventos a partir de 1.500 pessoas, incluindo shows menores, formaturas, encontros corporativos, feiras e palestras. A diversificação ajuda a ampliar as possibilidades de utilização da estrutura para além das grandes turnês.
Para os próximos anos, o objetivo é aumentar a presença do Norte e Nordeste na rota internacional. Luisa aponta uma demanda regional importante, inclusive de fãs que não conseguem viajar ao Sudeste para assistir a determinados artistas.
A ambição que deu origem ao Classic Hall continua presente, agora acompanhada pelos aprendizados de mais de duas décadas de operação.

“O legado que queremos ampliar é esse: oferecer grandes experiências aqui e fazer com que o potencial da nossa região se transforme em cada vez mais oportunidades para o público, os artistas e o mercado”.
Luisa Nóbrega, diretora de marketing do Classic Hall
Mais do que a história de uma casa de shows, a trajetória do Classic Hall ajuda a ilustrar um desafio permanente do entretenimento ao vivo no Brasil: construir condições para que grandes turnês cheguem a diferentes regiões e para que o mercado local tenha estrutura, parceiros e público capazes de sustentá-las.