Dados, escala e experiência: para Lucas Zaffari, o futuro do show business passa pela combinação entre inteligência de mercado e conhecimento local
CEO da Opus Entretenimento fala sobre profissionalização da indústria, novos modelos de receita, expansão regional, curadoria e o papel dos dados nas decisões do entretenimento ao vivo
O entretenimento ao vivo deixou de ser apenas uma atividade ligada à realização de shows e passou a ocupar um espaço cada vez mais estratégico dentro da economia da experiência. Turismo, serviços, consumo, patrocínios, hospitalidade e relacionamento com o público passaram a fazer parte de uma mesma cadeia de valor, enquanto produtores e operadores precisam lidar com um consumidor mais disputado e sensível a preço.
Para Lucas Zaffari, CEO da Opus Entretenimento, essa transformação deve continuar nos próximos anos — e uma das principais consequências será a necessidade de combinar experiência prática, conhecimento das particularidades de cada mercado e uma utilização cada vez mais estruturada de dados.
Com cinco décadas de atuação, a Opus é uma das empresas pioneiras no modelo de gestão 360º no entretenimento ao vivo. Em uma operação que, segundo Zaffari, produz em média mais de 3 mil eventos por ano e recebe cerca de 5 milhões de espectadores, compreender diferenças entre praças, comportamento de compra, preços, ocupação e demanda deixa de ser apenas uma vantagem competitiva e passa a ser parte essencial da tomada de decisão.
“As melhores decisões costumam surgir da combinação entre conhecimento de mercado, experiência prática e informações confiáveis”
A declaração resume uma das principais discussões que atravessam o atual momento da indústria: como transformar um mercado historicamente orientado pela experiência e pela intuição em uma operação cada vez mais profissional e orientada por inteligência.
Uma indústria que amplia suas fontes de receita
Na avaliação de Zaffari, a primeira grande mudança está na própria dimensão que o entretenimento ao vivo passou a ocupar.
O evento continua sendo o centro da experiência, mas a operação ao seu redor se tornou mais complexa. Patrocínios, programas de relacionamento, hospitalidade e consumo dentro das venues são algumas das frentes que podem ampliar as fontes de receita e aprofundar a relação entre marcas, artistas e público.
“O evento em si continuará sendo o centro da experiência, mas o mercado passa a gerar novas fontes de receita também por meio de patrocínios, programas de relacionamento, hospitalidade, consumo dentro das venues e outras iniciativas que diversificam a conexão com o público.”
Essa evolução também coloca as venues em uma posição cada vez mais estratégica.
Para o executivo, casas de shows, arenas e teatros deixam de ser apenas espaços físicos para a realização de eventos e passam a funcionar como ativos capazes de estabelecer uma relação contínua com o público, gerar maior previsibilidade operacional e sustentar uma programação diversificada ao longo do ano.
A próxima disputa será pela relevância
Ao mesmo tempo em que o mercado cresce, a oferta de entretenimento também aumenta.
O consumidor tem mais opções de shows, festivais, experiências e conteúdos para escolher — e, nesse cenário, Zaffari acredita que simplesmente reunir grandes artistas não será suficiente para garantir relevância.
A resposta passa pela identidade dos projetos.
“Os eventos que conseguem criar uma proposta clara, com personalidade própria e conexão genuína com o público, tendem a ocupar um espaço diferenciado”, afirma.
Nesse contexto, a curadoria ganha importância. Para o CEO da Opus, o trabalho não está apenas na contratação de uma atração, mas na construção de uma experiência que faça sentido para uma determinada audiência.
A lógica vale especialmente em um mercado no qual o público busca cada vez mais identificação e pertencimento.
“Muitas vezes, o interesse está associado ao sentimento de pertencimento a uma comunidade, a um estilo de vida ou a uma experiência compartilhada.”
A consequência é uma mudança importante na lógica de construção de projetos: experiência e conexão passam a ser tão importantes quanto escala.
O Brasil não é um único mercado
Se a identidade é importante para a construção de um projeto, compreender onde esse projeto será realizado é igualmente estratégico.
O Brasil apresenta diferenças significativas de comportamento de consumo entre suas regiões. Para uma empresa que opera nacionalmente, decisões sobre programação, expansão e investimento precisam considerar essas particularidades.
Zaffari cita diferenças entre mercados como São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza, Recife e Florianópolis, envolvendo hábitos de consumo, poder de compra, calendário de eventos, preferências artísticas e velocidade de resposta do público.
“O comportamento do público em São Paulo não é necessariamente o mesmo de Porto Alegre, Fortaleza, Recife ou Florianópolis”, afirma.
É justamente nesse ponto que a inteligência de mercado ganha uma dimensão prática.
Segundo o executivo, entender a dinâmica de cada praça permite identificar oportunidades, compreender demandas específicas e direcionar investimentos com maior precisão.
A própria estrutura da Opus reflete essa estratégia. A empresa administra casas em diferentes regiões, incluindo São Paulo, Porto Alegre, Gramado, Florianópolis, Fortaleza, Recife e Natal, além de atuar no segmento de Talents, Tours & Festivals, com gerenciamento 360º de carreiras, séries de apresentações e grandes eventos.
Em uma operação dessa escala, dados de comportamento de compra, histórico de vendas, ocupação, preços praticados e movimentação do mercado passam a fazer parte do processo de decisão.
De dados dispersos a inteligência de mercado
É nesse contexto que Zaffari enxerga espaço para uma evolução ainda maior da indústria brasileira.
Nos mercados mais desenvolvidos, segundo ele, informações sobre comportamento do público, vendas, preços, ocupação de venues, circulação de artistas e tendências de consumo já fazem parte das decisões estratégicas.
O movimento começa a ganhar força também no Brasil.
Mas o executivo faz uma ressalva importante: uma cultura orientada por dados não significa substituir a experiência de quem trabalha no setor.
“Isso não significa substituir a experiência ou a sensibilidade que o entretenimento exige. Pelo contrário.”
Para Zaffari, o valor está justamente na combinação entre os dois lados: experiência acumulada e informação confiável.
É uma mudança relevante para uma indústria na qual decisões historicamente dependeram de conhecimento empírico, relacionamento, leitura de mercado e percepção de demanda.
Com o crescimento do setor, essas informações passam a precisar de estrutura.
Uma indústria mais preparada para crescer
Entre as perguntas que começam a ganhar importância estão quais regiões apresentam maior potencial para determinados artistas, quais formatos têm melhor desempenho, como o público está consumindo entretenimento e como os hábitos de compra estão mudando.
Nesse cenário, bases estruturadas de informação podem reduzir a dispersão de dados e ajudar diferentes agentes da cadeia a enxergar o mercado de forma mais ampla.
Para Zaffari, esse movimento beneficia não apenas produtores.
Artistas, venues, patrocinadores e investidores também passam a ter uma visão mais clara das oportunidades existentes.
“Quanto mais informações qualificadas tivermos sobre o setor, maior será nossa capacidade de planejar o crescimento da indústria de forma sustentável.”
A visão aponta para uma transformação que vai além da tecnologia. A cultura data-driven, nesse caso, representa uma mudança na forma como o mercado entende suas próprias oportunidades.
E, para uma indústria cada vez maior, profissionalizada e regionalmente diversa, conhecer melhor o mercado pode ser tão importante quanto conhecer o público.
A conversa com Lucas Zaffari integra o Showbiz Brasil Market Report | Outlook Q4 2026, estudo que reúne dados e análises sobre o mercado brasileiro de música ao vivo no último trimestre de 2026.
O report cruza informações de artistas, produtoras, venues, ticketings, festivais, gêneros e mercados regionais, além de reunir entrevistas com profissionais que atuam diretamente na indústria.
A proposta é oferecer uma visão mais estruturada sobre o mercado que está por vir, seus principais movimentos, concentrações e oportunidades.
Acesse a edição completa do Showbiz Brasil Market Report | Outlook Q4 2026.
