Shows gratuitos de prefeituras pressionam produtores locais e levantam debate sobre disputa no mercado
A expansão de grandes apresentações gratuitas reacende a discussão sobre a sustentabilidade dos produtores privados
A temporada de grandes shows gratuitos promovidos por prefeituras e governos estaduais movimenta cidades, amplia o acesso à música e pode impulsionar o turismo e o comércio local. Para produtores privados, porém, a expansão desse modelo também levanta uma questão econômica: como competir pela atenção do público e pelos mesmos artistas quando parte da programação é oferecida sem cobrança de ingresso?
O debate ganhou força no Espírito Santo após o Multiplace Mais, tradicional complexo de entretenimento de Guarapari, anunciar que não realizará seu Festival de Verão em 2027. A decisão interrompe uma sequência de 26 anos de programação durante a temporada de verão.

Em entrevista exclusiva, Bruno Lawall ponderou, no entanto, que seria incorreto atribuir a suspensão exclusivamente aos shows gratuitos. Segundo ele, a decisão reflete uma soma de fatores que afeta a viabilidade financeira das produções.
“Os valores dos cachês das grandes atrações também chegaram a patamares muito altos (desde a pandemia) e, para uma casa com capacidade para cerca de 6 mil pessoas, muitas vezes a conta não fecha”, afirmou.
A disputa pelos mesmos artistas
Quando prefeituras e governos contratam atrações de grande apelo popular para apresentações gratuitas, o público passa a ter mais opções de entretenimento sem precisar comprar ingresso. Para os produtores privados que trabalham com os mesmos artistas, isso pode influenciar a demanda, especialmente quando os eventos acontecem na mesma região e em períodos próximos.
A questão também envolve o mercado de contratação artística. Na avaliação de Lawall, a presença de órgãos públicos disputando as mesmas atrações pode contribuir para elevar os valores cobrados, ao mesmo tempo que afeta a disposição do público para pagar por apresentações semelhantes.
O impacto, contudo, depende de fatores como a proximidade entre os eventos, o perfil do público, a programação, a diferença de experiência oferecida e o calendário de cada praça. Um show gratuito pode competir diretamente com uma produção privada, mas também pode atrair visitantes, estimular o consumo e ampliar o interesse por música ao vivo. A dimensão desse efeito precisa ser analisada caso a caso.
A conta de produzir um show privado
Além dos cachês, realizar um evento privado envolve uma estrutura de custos que vai muito além do palco. No caso do Multiplace Mais, Lawall destaca despesas com equipamentos, logística, passagens aéreas, hospedagem, segurança, comunicação, produção e equipes operacionais.
“Tudo isso representa um custo muito elevado para entregar ao público o padrão que a casa sempre manteve”, explicou.
O empresário também chama atenção para as exigências legais e operacionais que integram o orçamento de uma produção privada, incluindo alvarás, fiscalização, projeto acústico, destinação de resíduos, impostos e treinamento de mão de obra. Na avaliação dele, essas obrigações tornam ainda mais complexa a comparação entre eventos privados e apresentações realizadas em espaços públicos.
As condições de cada evento, porém, variam conforme o modelo de contratação, a estrutura utilizada e as responsabilidades assumidas pelos organizadores. O ponto central para o produtor privado é que os custos precisam ser cobertos por receitas como venda de ingressos, patrocínios e consumo, enquanto a programação gratuita pode operar com outras fontes de financiamento.
O ingresso está perdendo valor?
Uma das principais preocupações levantadas por Lawall é o efeito da oferta gratuita sobre a percepção de valor do ingresso. Para uma produção privada, o preço precisa cobrir os custos e permitir uma margem financeira compatível com o risco assumido. Ao mesmo tempo, o consumidor compara as alternativas disponíveis e decide onde investir seu orçamento de lazer.
“Será que ele ainda compraria um ingresso mais caro, projetado pelo Multiplace Mais, que custeasse as despesas de produção e ao mesmo tempo permitisse lucro na atividade, para viver uma experiência positiva e assistir um show de seu artista favorito, mas que tem se apresentado de graça? Será que o ingresso não está sendo desvalorizado?”, questionou.
A reflexão aponta para um desafio que vai além da gratuidade: a capacidade de o produtor privado justificar o preço por meio da experiência oferecida. Estrutura, conforto, proximidade do palco, serviços, programação e exclusividade podem diferenciar um evento pago de uma apresentação aberta ao público. Ainda assim, esses atributos precisam ser suficientes para convencer o consumidor a comprar o ingresso.
Uma decisão que vai além dos shows gratuitos
O caso do Multiplace Mais evidencia a dificuldade de equilibrar custos e receitas em operações sazonais de grande porte. Com capacidade para cerca de 6 mil pessoas, a casa decidiu não realizar o Festival de Verão Mais em 2027 e informou que acompanhará o comportamento do mercado antes de avaliar os próximos passos.
“Neste momento, não temos como pensar ou antecipar uma nova programação. A decisão é esperar passar o verão, acompanhar o comportamento do mercado e avaliar como estará esse cenário no próximo ano”, disse Lawall à Showbiz.
O empresário ressaltou que a suspensão não representa o encerramento definitivo da programação de verão, mas uma pausa até que seja possível avaliar novamente as condições para a realização do festival.
O episódio abre uma discussão relevante para o setor: qual é o papel dos grandes eventos gratuitos na economia do entretenimento e como seus efeitos se distribuem entre público, artistas, poder público e produtores privados?
As apresentações gratuitas podem ampliar o acesso à cultura e gerar atividade econômica nas cidades. Ao mesmo tempo, quando disputam atrações, datas e público com eventos pagos, podem aumentar a pressão sobre modelos de negócio que dependem da bilheteria para sustentar suas operações.
O desafio é compreender os efeitos dessa convivência com dados sobre contratação artística, público, arrecadação, ocupação hoteleira, geração de empregos e desempenho dos eventos privados. Sem essa análise, tanto a ideia de que shows gratuitos prejudicam necessariamente o setor quanto a de que seus impactos são sempre positivos permanecem incompletas.
Para produtores como o Multiplace Mais, a decisão agora é observar como o mercado se comportará na próxima temporada. Para o setor como um todo, a questão é encontrar formas de ampliar o acesso à música sem perder de vista a sustentabilidade econômica de quem investe na produção de shows.
